Dear Sirs,
I am.
Sincerely yours,
G. K. Chesterton
A respeito da veracidade do fato, diz a American Chesterton Society:
This story has been repeated so often about Chesterton that we suspect it is true. Also, it seems it is never told about any one other than Chesterton. What we have not found, however, is any documentary evidence for it. It may indeed be from The Times, as the story is usually told, but no one has taken the trouble to go through the back issues and find a copy of the actual letter. It has also been attributed to other papers, but again, no proof.
It is also entirely possible that it actually happened with another author, but has been attributed to Chesterton because it is typical of both is humility and his wit and because it is associated with the title of a book he wrote in 1910, What’s Wrong with the World.
* * *Real ou não, o fato combina perfeitamente com o caráter do nosso amigo. O que está errado com o mundo não é a corrupção em níveis alarmantes, os crimes, a modernidade, a maçonaria ou a Igreja.
Na verdade, tudo começa com esse eu estou errado. Alguns dirão que se trata de auto-rebaixamento ou algo do gênero. Não é. Ele sabia que era inteligente, mais do que a grande e esmagadora maioria, e que era, no final das contas, um homem de sorte, muito bem casado (embora não pudessem ter filhos), etc. Esse eu estou errado é uma constatação imensamente saudável, mesmo que se saiba especialmente agraciado, não com coisas espetaculares, mas com uma vida feliz (ainda não morri, mas penso que é o meu caso e o de muitos leitores).
Como esse blog é um enorme parênteses dentro de outro, e de outro, ad inf., vamos lá.
Nunca se pode estar seguro de que se vai morrer nesse estado. A transitoriedade é um fato, e não adianta espernear. A vida é work in progress, espero que não um Finnegans Wake, e é preciso constantemente reafirmar aquela velha fidelidade depois que se viu para onde vão os tiros. Você está sempre como Ulisses: tem consciência de que é necessário - Lo! a sabedoria grega! - amarrar-se ao mastro do navio para garantir que, quando passarem pelas sirenes (ou sereias), você não abandonará o navio como um filho da égua. Mas você pode deixar passar. E ter de dar reboot. Estas são as regras do jogo.
O mundo moderno, desculpem o chavão, é um mundo de especialistas. Eu diria que é o mundo da terceirização. Quando você precisa entrar em forma, contrata um personal. Quando precisa escrever uma tese, vai buscar autores que já escreveram sobre o tema. Quando não sabe que caminho tomar, olha no Guia Mais, ou melhor, no Google Maps. E assim por diante. Sabemos ir às fontes, e elas estão aí, pornograficamente disponíveis.
Mas e quando o assunto é que merda de vida viver? Aí esses meios não ajudam. A vida é uma unidade, e as especialidades não estão à altura dela. Não há propriamente especialistas em felicidade; isso seria uma contradição em termos. Ou melhor, mesmo se houvessem - e de fato há quem se arrogue o título -, eles seriam tratados com desconfiança, e com razão.
Se você vai adiante, vai descobrir que existem, não pessoas, mas tradições muito antigas que procuram lidar seriamente com esse tema, e que dizem possuir a chave. A filosofia é uma delas, mas os melhores entre os autores sabem que ela não dá respostas muito práticas.
Quase sempre as tradições antigas nos darão bons insights. Elas têm mais experiência - já que o homem é sempre o mesmo, e o mesmo cabeça de bagre, por mais que se esperneie - do que os personal trainers da felicidade. Mas isso não é tudo. Sempre se chegará à conclusão de que elas são contraditórias entre si, e que nenhuma merece a minha confiança.
Afirmo que a chave para a felicidade está em algo que transcende as tradições. Ela não é mais um entre outros caminhos. Ela é a própria realidade, o próprio ser, em parte inacessível, em parte acessível, ao menos para quem está munido de um mínimo de sinceridade. Essa vontade de acertar parece pouco, mas é tudo.
Como tudo o que é bom, a vontade de acertar é o mais difícil. O alemão tem uma palavra interessante: Aufrichtigkeit, que pode ser traduzida como sinceridade, honestidade, franqueza, genuinidade, etc. É estar sobre, auf, a retidão, die Richtigkeit. Se pudesse construir uma palavra, seria Hinaufrichtigkeit, que pode indicar uma direção em direção à Direção (desculpem se isso complica um pouco as coisas, mas acho que se pode entender). Essa Direção é a própria realidade. Por mais que fiquem putos da vida, sem nós há uma realidade. Ela está lá. Estava lá antes de nós. Ela nos transcende justamente porque não foi inventada por nós. Mesmo no esquema mais radical berkeleyano, não se pode ocultar o fato de que alguém, Berkeley no caso, escreveu uma doutrina, já está morto e, plaft, aqui estamos nós diante de algo que foi escrito por outro, nesse caso um hoje-cadáver. Dá pra entender?
A direção, portanto, que devemos tomar é aquela que se assenta por baixo de tudo o que vamos, aos poucos, colocando sobre a realidade. São acidentes. Podiam ser e podiam não ser. Você podia ser careca, mas é cabeludo. O cabelo não traz felicidade. Esse pássaro é vermelho, mas morto é preto. Outros pássaros semelhantes ocorrem de ser alaranjados. O que está por trás desses pássaros? Pode ser tudo, menos o nada. A isso chamamos a substância de pássaro, que pode ser abstraída em passaridade. Pois - como a mesma lógica se aplica a todas as coisas, já que sem essa subjacência elas simplesmente não seriam, e não se poderia sequer pensar em falar nelas, pois - como essa lógica se aplica a tudo, podemos dizer com segurança que ela também se aplica à realidade como um todo. A realidade tem realidade.
A direção moral, portanto, nas minhas concretíssimas circunstâncias, é uma direção real (estrutura metafísica da ética), é um caminho perfeitamente trilhável. A sinceridade é que destrói as conversinhas de filósofo, a auto-ajuda, a falsa religiosidade, a moda, os blogs, o papel, o "mas podemos duvidar também disso" (reparem na ironia, pois para poder duvidar é necessário atribuir certeza à possibilidade de duvidar, malditamente realista), enfim, todas as aparências que nos afastam da realidade.
O ser possui um fundo, e mesmo que ele nos seja parcialmente inacessível, é para ele que nos devemos dirigir. Ou então, meu amigo, se mata. Eu não sei você, mas eu nasci com uma vontade enorme de fazer a coisa certa - e isso exclui o "ser certinho", porque ser certinho é errar. E mesmo quando fiz a coisa errada, sabia que, de um modo ou de outro, eu estava errado (mais uma vez, a realidade do erro é uma prova da realidade da verdade).
O que há no episódio tipicamente chestertoniano é uma expressão perfeita dessa dificuldade de acertar (em termos cristãos, o pecado original, oh horror). O que ninguém pode, entretanto, retirar de nós é essa retidão.
A tradição que entendesse esse equilíbrio delicado entre a bondade e a maldade do homem - a vontade de acertar e os constantes erros, o reconhecer o ser e mesmo assim optar pelo nada - se colocaria, sem ironia e sem arrogância, por cima de todas as outras. E por isso ela não seria uma simples tradição, e por isso nunca seria um caminho entre outros.
Ela seria tão superior a mim que cometeria a desfaçatez de me chamar pelo meu nome.
