Domingo, Julho 26, 2009

Para onde vão os tiros

É conhecido o suposto episódio em que Chesterton responde à pergunta que o jornal London Times fez a vários escritores: "O que há de errado com o mundo?". Sua resposta teria sido uma carta com o seguinte conteúdo:

Dear Sirs,

I am.

Sincerely yours,
G. K. Chesterton

A respeito da veracidade do fato, diz a American Chesterton Society:

This story has been repeated so often about Chesterton that we suspect it is true. Also, it seems it is never told about any one other than Chesterton. What we have not found, however, is any documentary evidence for it. It may indeed be from The Times, as the story is usually told, but no one has taken the trouble to go through the back issues and find a copy of the actual letter. It has also been attributed to other papers, but again, no proof.

It is also entirely possible that it actually happened with another author, but has been attributed to Chesterton because it is typical of both is humility and his wit and because it is associated with the title of a book he wrote in 1910, What’s Wrong with the World.

* * *

Real ou não, o fato combina perfeitamente com o caráter do nosso amigo. O que está errado com o mundo não é a corrupção em níveis alarmantes, os crimes, a modernidade, a maçonaria ou a Igreja.

Na verdade, tudo começa com esse eu estou errado. Alguns dirão que se trata de auto-rebaixamento ou algo do gênero. Não é. Ele sabia que era inteligente, mais do que a grande e esmagadora maioria, e que era, no final das contas, um homem de sorte, muito bem casado (embora não pudessem ter filhos), etc. Esse eu estou errado é uma constatação imensamente saudável, mesmo que se saiba especialmente agraciado, não com coisas espetaculares, mas com uma vida feliz (ainda não morri, mas penso que é o meu caso e o de muitos leitores).

Como esse blog é um enorme parênteses dentro de outro, e de outro, ad inf., vamos lá.

Nunca se pode estar seguro de que se vai morrer nesse estado. A transitoriedade é um fato, e não adianta espernear. A vida é work in progress, espero que não um Finnegans Wake, e é preciso constantemente reafirmar aquela velha fidelidade depois que se viu para onde vão os tiros. Você está sempre como Ulisses: tem consciência de que é necessário - Lo! a sabedoria grega! - amarrar-se ao mastro do navio para garantir que, quando passarem pelas sirenes (ou sereias), você não abandonará o navio como um filho da égua. Mas você pode deixar passar. E ter de dar reboot. Estas são as regras do jogo.

O mundo moderno, desculpem o chavão, é um mundo de especialistas. Eu diria que é o mundo da terceirização. Quando você precisa entrar em forma, contrata um personal. Quando precisa escrever uma tese, vai buscar autores que já escreveram sobre o tema. Quando não sabe que caminho tomar, olha no Guia Mais, ou melhor, no Google Maps. E assim por diante. Sabemos ir às fontes, e elas estão aí, pornograficamente disponíveis.

Mas e quando o assunto é que merda de vida viver? Aí esses meios não ajudam. A vida é uma unidade, e as especialidades não estão à altura dela. Não há propriamente especialistas em felicidade; isso seria uma contradição em termos. Ou melhor, mesmo se houvessem - e de fato há quem se arrogue o título -, eles seriam tratados com desconfiança, e com razão.

Se você vai adiante, vai descobrir que existem, não pessoas, mas tradições muito antigas que procuram lidar seriamente com esse tema, e que dizem possuir a chave. A filosofia é uma delas, mas os melhores entre os autores sabem que ela não dá respostas muito práticas.

Quase sempre as tradições antigas nos darão bons insights. Elas têm mais experiência - já que o homem é sempre o mesmo, e o mesmo cabeça de bagre, por mais que se esperneie - do que os personal trainers da felicidade. Mas isso não é tudo. Sempre se chegará à conclusão de que elas são contraditórias entre si, e que nenhuma merece a minha confiança.

Afirmo que a chave para a felicidade está em algo que transcende as tradições. Ela não é mais um entre outros caminhos. Ela é a própria realidade, o próprio ser, em parte inacessível, em parte acessível, ao menos para quem está munido de um mínimo de sinceridade. Essa vontade de acertar parece pouco, mas é tudo.

Como tudo o que é bom, a vontade de acertar é o mais difícil. O alemão tem uma palavra interessante: Aufrichtigkeit, que pode ser traduzida como sinceridade, honestidade, franqueza, genuinidade, etc. É estar sobre, auf, a retidão, die Richtigkeit. Se pudesse construir uma palavra, seria Hinaufrichtigkeit, que pode indicar uma direção em direção à Direção (desculpem se isso complica um pouco as coisas, mas acho que se pode entender). Essa Direção é a própria realidade. Por mais que fiquem putos da vida, sem nós há uma realidade. Ela está lá. Estava lá antes de nós. Ela nos transcende justamente porque não foi inventada por nós. Mesmo no esquema mais radical berkeleyano, não se pode ocultar o fato de que alguém, Berkeley no caso, escreveu uma doutrina, já está morto e, plaft, aqui estamos nós diante de algo que foi escrito por outro, nesse caso um hoje-cadáver. Dá pra entender?

A direção, portanto, que devemos tomar é aquela que se assenta por baixo de tudo o que vamos, aos poucos, colocando sobre a realidade. São acidentes. Podiam ser e podiam não ser. Você podia ser careca, mas é cabeludo. O cabelo não traz felicidade. Esse pássaro é vermelho, mas morto é preto. Outros pássaros semelhantes ocorrem de ser alaranjados. O que está por trás desses pássaros? Pode ser tudo, menos o nada. A isso chamamos a substância de pássaro, que pode ser abstraída em passaridade. Pois - como a mesma lógica se aplica a todas as coisas, já que sem essa subjacência elas simplesmente não seriam, e não se poderia sequer pensar em falar nelas, pois - como essa lógica se aplica a tudo, podemos dizer com segurança que ela também se aplica à realidade como um todo. A realidade tem realidade.

A direção moral, portanto, nas minhas concretíssimas circunstâncias, é uma direção real (estrutura metafísica da ética), é um caminho perfeitamente trilhável. A sinceridade é que destrói as conversinhas de filósofo, a auto-ajuda, a falsa religiosidade, a moda, os blogs, o papel, o "mas podemos duvidar também disso" (reparem na ironia, pois para poder duvidar é necessário atribuir certeza à possibilidade de duvidar, malditamente realista), enfim, todas as aparências que nos afastam da realidade.

O ser possui um fundo, e mesmo que ele nos seja parcialmente inacessível, é para ele que nos devemos dirigir. Ou então, meu amigo, se mata. Eu não sei você, mas eu nasci com uma vontade enorme de fazer a coisa certa - e isso exclui o "ser certinho", porque ser certinho é errar. E mesmo quando fiz a coisa errada, sabia que, de um modo ou de outro, eu estava errado (mais uma vez, a realidade do erro é uma prova da realidade da verdade).

O que há no episódio tipicamente chestertoniano é uma expressão perfeita dessa dificuldade de acertar (em termos cristãos, o pecado original, oh horror). O que ninguém pode, entretanto, retirar de nós é essa retidão.

A tradição que entendesse esse equilíbrio delicado entre a bondade e a maldade do homem - a vontade de acertar e os constantes erros, o reconhecer o ser e mesmo assim optar pelo nada - se colocaria, sem ironia e sem arrogância, por cima de todas as outras. E por isso ela não seria uma simples tradição, e por isso nunca seria um caminho entre outros.

Ela seria tão superior a mim que cometeria a desfaçatez de me chamar pelo meu nome.

Sábado, Julho 25, 2009

I'd rather go for a pint of Guinness

Alguns leitores terão percebido que, volta e meia, recebo comentários não exatamente simpáticos do Adriano Correia. Pensando nisso, trago a lume uma breve consideração sobre a sua pessoa, com a finalidade de desfazer eventuais equívocos.

O Adriano é um excelente rapaz. Já almocei em sua casa, conheci os seus pais - gente boníssima -, e fui recebido com verdadeira hospitalidade. E não há porém. Ao vivo, Adriano é extremamente educado, nunca me tratou mal e o mais das vezes apenas rimos juntos ou conversamos sobre metafísica ou ética. Acrescento que ele é dono de um senso de dever que supera o dos melhores suíços: nunca reteve um livro emprestado, sempre devolvendo com pontualidade. Além do mais é inteligente e escreve bem.

Não quero que concluam, portanto, a partir desses "ataques", qualquer coisa de negativo contra ele. Cada um tem o seu estilo e os seus defeitos. Não me agrada a acusação gratuita de "canalhice"; mas estou tentando, aos trancos e barrancos, seguir o conselho de Sócrates, que quando injuriado se preocupava mais com o injuriador do que com a sua própria reputação. Deixo o julgamento quanto a esta última a quem tiver autoridade para fazê-lo.

Não faço mais que minha obrigação, e isso não me custa esforço e muito menos deve contar a meu favor. Quem pensar o contrário estará gravemente equivocado.

O melhor é não levar a vida tão a sério e tomar uma boa cerveja. Quem quiser brigar que chame um Rocky Balboa Aposentado pra porrada.

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Auctoritate magis quam imperio regebat loca

O que torna (qualquer) assunto acadêmico interessante, por mais longe que esteja das nossas inclinações naturais, é a habilidade e a profundidade com que ele é tratado.

Ontem terminou um seminário do qual participei sobre o dote (dos) em direito romano, a partir de documentos literários, papiros e fontes jurídicas. O assunto não me interessa nem um pouco, porque foge totalmente do meu âmbito de estudos. Mas em todas as reuniões estava presente o Prof. Dieter Nörr, já perto dos 80 anos, encurvado pela idade e mais lúcido do que nunca. Só isso já me serviu de desculpa para perder 2 horas semanais durante meses com esse assunto desinteressante.

Não posso dizer que aprendi algo de importante sobre a matéria. Em termos utilitários, descobri um papiro que me fez pensar numa idéia e numa questão prática conexa com minha pesquisa. E é só. Mas foi a primeira vez em que travei contato com alguém que, inquestionavelmente, atingiu os cumes da ciência a que se dedica (um auctor, num dos sentidos originais do termo, como definirei adiante); e não por puro esforço: o homem tem talentos que normalmente só se vê em livros, e que ao vivo passam ocultos em razão da discrição.

Um homem assim atingiu algo que os romanos chamavam auctoritas. Ela passa longe tanto da afetação juvenil quanto da esclerose dos velhos. A auctoritas tem algo de jovem e algo de experiente: de jovem porque transmite vitalidade, instiga a curiosidade, torna as coisas atraentes e faz pensar tudo desde o início; de experiente porque nada ali é gratuito - tudo está em seu lugar e é resultado de um processo de maturação. Diante de quem naturalmente atinge essa maturidade, nenhum questionamento passa em branco e, ao mesmo tempo, os outros se sentem à vontade para falar, mesmo que seja bobagem (ele sabe que a aprendizagem é sempre individual, e por isso valoriza o conflito e o erro).

A ciência requer condições que não se aprendem oficialmente na Academia. Não se aprende a ser amável ou humilde - no sentido correto do termo, que é, pela milésima vez, submissão à verdade, especialmente quando ela aparentemente me diminui diante de mim e diante dos outros -, não se aprende a ser homem. A ciência que está registrada foi feita por homens, e ela nunca dispensou elementos que estão a rigor fora do seu âmbito (refiro-me especialmente às antipáticas virtudes). Consideramos a ciência, mas muitas vezes não aquilo que era condição de possibilidade para que ela surgisse.

Digo isso porque a Academia não precisa ser um lugar chato onde se lê, se faz perguntas, se perde tempo e depois se vai para casa. E porque as ciências - refiro-me também às exatas - não falam apenas do homem enquanto isso ou enquanto aquilo ou do movimento ou dos números; mesmo indiretamente, ela fala do homem enquanto homem, dos seus limites e potencialidades.

* * *

Mas não deixarei de mencionar algo ainda mais importante. Quem detém a auctoritas não chama a atenção para si, mas para algo que está fora dele: a verdade, mesmo relativa, mesmo provável ou hipotética, sobre um objeto de estudo.

Minha 'teoria' é que a relação que temos com um auctor é triangular, e se aplica especialmente às ciências humanas. No ponto A está o próprio auctor; no B, quem o ouve; no ponto C, o objeto de conhecimento. O auctor está sempre preocupado com o ponto C, e seu trabalho consiste simplesmente em transmitir, por contato, esta preocupação a quem ocupa o ponto B. A isso chamamos formação.

Quem afeta conhecimento apaga, deliberadamente, o ponto C, a fim de se sobressair e impressionar. Isso faz, por exemplo, quem, numa discussão, perde-se na "crítica", mostrando o seu poder de argumentação ou conhecimento destruindo tudo o que está a seu redor, para que todos olhem para ele e esqueçam coisas imbecis como a "verdade", a honestidade intelectual, etc. Uma variante é rebaixar alguém para que, em comparação com o sujeito rebaixado, eu me torne maior (em outras palavras, inveja).

A manutenção dessa relação triangular num discurso e numa atitude de fundo é prova de honestidade. É o único caminho possível para o trabalho intelectual.

A reação virulenta ao argumento de autoridade é sempre resultado de um desequilíbrio nessa relação. Se ela se mantém, a idéia de autoridade na verdade pode ser reestabelecida e os gritos de quem, movido por vontade de auto-afirmação, virar-se contra ela, não serão ouvidos.

Sábado, Julho 18, 2009

Gott könnte das modernste Wesen sein

Nessa semana esteve na casa onde moro o filósofo francês Rémi Brague, "um dos grandes" segundo descrição do companheiro Martim, para falar sobre "O Deus dos modernos". Juro que tive a impressão - parcialmente falsa - de que era a primeira vez que via alguém falar com propriedade. Ah-ham, a gente está acostumado a ouvir pessoas inteligentes, excelentes professores, enfim, pessoas que sabem do que falam. Mas não filósofos. Rémi Brague é um filósofo, no sentido menos piegas que se pode imaginar. Não é à toa que ele é o sucessor de Romano Guardini em Munique.

As perguntas foram muito boas, apesar do tempo que exigiram. Brague tem método e usa o alemão como uma espécie de Lego lógico-retórico. Surpreendentemente, o resultado é algo vivo, instigante. Em dado momento, ele discutiu justamente o significado mais profundo da palavra interessante, fazendo um jogo de palavras com o francês (eu filmei essa parte, mas o áudio ficou tenebroso).

Houve uma pergunta (do conteúdo não me recordo) que foi respondida mais ou menos assim: o problema crítico do ateísmo - lembrando de Dawkins - é que ele combate um conceito de Deus que teólogos e filósofos clássicos seriam os primeiros a combater (ou melhor, já combateram e têm mais o que fazer), e com muito mais habilidade, de modo que o seu efeito acaba sendo meio kicking a dead pig, chutando um porco já morto, na expressão de um disco remix do Mogwai. Um conceito tão pobre, armselig, de Deus, que faria qualquer teólogo vomitar. Em outras palavras: os cristãos são ainda mais ateus que os ateus (o que nos leva à famosa entrevista com Girard). O ateísmo só faz mudar de assunto. Gott, disse ele, ruft unsere Freiheit an.*

Aproveito para linkar o artigo publicado no Tagespost de anteontem descrevendo a palestra. Infelizmente está em alemão (quem sabe não serve de estímulo para você começar a estudar o idioma de Belzebu?). Não fiz a experiência, mas talvez se possa tentar traduzi-lo pelo Babel ou o que seja.

Em língua user-friendly, aqui vai uma entrevista com ele: "Yellow Ants", Fundamentalists, and Cowboys.

* "Deus invoca nossa liberdade", na melhor tradução que consegui fazer.

Domingo, Julho 12, 2009

Don't eat the yellow snow (actually someone hath pissed on it, bozo)

Muitas vezes ajuda pensar com crueza: eu posso estar errado. Não como quem simplesmente considera a possibilidade. É algo extremamente difícil. Considerar uma possibilidade real é bastante diferente de refletir como um adolescente de todas as idades, yeah, I could be right and I could be wrong. Trata-se de entrar com seriedade num ambiente mental em que a realidade cresce e, junto com ela, uma disposição sincera, não de duvidar simplesmente (cartesianamente?), mas de afastar todos os obstáculos que nos distanciam da verdade.

Quando falamos em verdade, é natural que as pessoas desconfiem, especialmente se ela vem com maiúscula e cheia de pretensão pseudotomista. Mas pensem em verdades simples: eu penso que tal rua se chama A e na verdade ela se chama B; eu penso que A é um preguiçoso por não ter vindo, quando na realidade ele não veio porque o pneu furou; eu julgo que alguém é um idiota completo quando na real ele é apenas discreto. Evidentemente, em outros casos a complexidade aumenta. Mas o princípio é o mesmo. Senão, não há conversa possível, não há busca, e o melhor e meter-se dentro de um barril.

A verdade começa com coisas práticas, e afirma o seu valor justamente aí: quando ela nos envolve, quando ela é quase uma questão de sobrevivência. Aí não brincamos. Não somos ateus, não somos idealistas, não somos nada. Somos homens que querem sobreviver, ou que querem que um filho não seja um pacana, ou que querem conquistar uma mulher. É muito bonito dizer-se que se é cristão ou ateu. Mas e quando essa posição é posta à prova? Quando já não é questão de ser legalzinho ou chocar os amigos, mas de decidir com base nesse fundamento? É fashion admitir que sou relativista; mas e quando a minha própria estrutura pessoal começa a ruir em função disso, fustigada em suas bases por decisões práticas que supõem justamente a realidade das coisas (ou seja, uma suspensão do mesmo relativismo)?

* * *

Não sei se é o tão-falado espírito do tempo, mas o fato é que brincar com as próprias convicções parece estar em moda. Todos têm convicções, mesmo que sejam loucos ou sejam o próprio Alfred Jarry.

Mas os ambientes insinceros - mesmo os espaços privados entre amigos - parecem colocar tudo em jogo. Neles não se fala a verdade - procura-se afetar e impressionar. Tenho de evitar a qualquer custo soar como alguém que acredita em alguma coisa. Preciso soar como um DJ inglês que não sabe qual lista de mp3 escolherá desta vez, e que e se diverte com isso.

A minha impressão é que, ao invés das opiniões insinceras (os uiticismos* de grupo, as piadas internas, as palavras de efeito) serem julgadas por um critério superior, ocorre justamente o contrário: a experiência, as normas práticas, os costumes, a razão mesma depende das configurações e tendências que se formam nesses ambientes e se cristalizam nessas palavras e frases mágicas.

* De witticisms: "comentários espertinhos", que aqui elevo à categoria máxima de visão de mundo em si mesma. Os franceses são mestres do jeu d'esprit, mas os bons entre eles sabem que se tratam de meios, e não de fins.

Isso não constitui uma crítica a essas ironias sociais. Elas são boas e necessárias. Mas elas supõem uma sabedoria prática; e elas devem ser usadas, aliás, justamente para transformar idéias que normalmente têm uma imagem piegas em coisas espertas e atraentes.

Não se trata, pois, de banir o que é atraente, mas de transmitir o que é atraente por si mesmo sob a forma de discursos e comportamentos inteligentes (não se trata de fazer concessões, mas sim de expurgar o ridículo, que é no mínimo desagradável).

Há, portanto, uma via média (uma mediedade, como diz Marco Zingano, traduzindo Aristóteles) entre a insinceridade cool e a ingenuidade ridícula. Oh yes, a verdade pode ser algo atraente - ela é atraente em si mesma, se a entendemos bem, e poucos estão dispostos a discordar sinceramente desse fato. Quem estiver disposto a fazê-lo, que seja interrogado. Quando a coisa pegar, ele mudará misteriosamente de opinião. Ou no mínimo as suas ações provarão que ele estava errado.

Domingo, Julho 05, 2009

A Hund is er scho!

As conexões que a ciência nos obriga a fazer torna a "interdisciplinaridade" algo inescapável. Acabei por comprová-lo na minha própria pesquisa sobre um antigo instituto de direito romano. Fui obrigado a emprestar dados de muitas disciplinas: história, geografia, epigrafia, papirologia, filologia, linguística, arqueologia, agricultura, agrimensura, fotografia aérea, e vai saber o que mais. Antes, eu achava que interdisciplinaridade fosse conversa fiada, e nunca imaginaria que teria de usar o Google Earth numa pesquisa sobre a propriedade privada em Roma. Sem que eu pudesse perceber, as coisas aconteceram.

Isso me fez pensar na autonomia da realidade, que destrói preconceitos e noções ideológicas (e dizê-lo não faz de mim um professor da USP). A ciência é uma excelente oportunidade para o exercício do "curvar-se aos objetos" que estão lá fora, ou seja, cuja existência não depende de mim.

In this study, the potential and feasibility of the use of panchromatic and multispectral QuickBird data for the identification and spatial characterization of archaeological sites was evaluated. The analysis focused on an assessment of the capability of QuickBird images to detect surface anomalies expected in the presence of archaeological buried remains. The investigations were performed for a test case in the south of Italy, where human activity has been logged from the Palaeolithic to the Middle Ages. The results show that the QuickBird panchromatic and data fusion products can be a flexible data source for archaeological prospection, and can be useful for extracting features of archaeological sites prior to any excavation work and for increasing the cultural value of historical sites.

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Que diabos é anti-folk?

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Noel Gallager recentemente afirmou, entre outras coisas, que não suportava isso de shows com mensagem política, discursos carregados de mea culpa, etc, a exemplo dos do Coldplay e do U2. Apesar de ele falar merda grande parte do tempo, sou forçado a concordar. E o "seu ponto" é que as pessoas vão aos shows para ouvir música, to have a good time. "Não vou a um show para me sentir culpado", disse ele.

Curiosamente, essa é uma característica marcante desde os anos 90 (ou 60?). Deve haver um espaço público em que os artistas são gente engajada, o público se sente culpado e todos dão as mãos. Mas gente, eu quero ouvir música. Eu não sou um cara legal. Talvez eu me preocupe mais com o que acontece na minha casa do que com a África (o que não significa que a África não seja digna de atenção, ou o Brasil ou a Inglaterra). Talvez eu queira ouvir alguém que saiba tocar bem o piano, ou o que?

O problema é que as pessoas se preocupam demais com algo que não podem mudar e ignoram aquilo que podem fazer. Deixar de tentar ser um cara tão bacana e engajado seria um bom passo. Isso você pode mudar. Deixar a angústia social de lado e arranjar um emprego que se possa desempenhar com arte: é o modo normal de agir bem e dar a sua contribuição à "sociedade" (eu digo real people), mesmo que ela seja totalmente imperceptível (exemplo: analisar fotografias aéreas e fumar no intervalo).

Ontem estive numa pequena festa. Um sujeito que conheci, com o mesmo nome que eu, dizia que aprendera há pouco algo interessante: não é porque eu sou bonzinho que coisas boas acontecem. Shit happens to good people. Eu acrescentaria que, se ele reparasse bem, descobriria que ele não é tão bom assim e que, mesmo que o fosse, a merda aconteceria. Simples, não? Mas como custa reconhecer. Não se trata de uma constatação depressiva. Não somos soviéticos. Mesmo descobrindo que não somos tão legais, há vida no depois. E acrescento, vida melhor. Mas eu não disse nada. Eu e ele aprenderemos sozinhos. Papai não precisa ensinar, nicht wahr?

Isso diz muito sobre a literatura, como o MVC muito bem disse, carregando no sombrio: ela lida com o fracasso, e sabe resolvê-lo de modo esteticamente aprazível. A vida é muitas vezes literária, como diz o cliché. Converter a vida em literatura, a literatura em vida (corta essa, Leonard Cohen, de novo, que maldito cliché). Mas ok, é por aí.

A providência atua nos bares, nos cafés: o palco muitas vezes é montado para que não sejamos mais outros, não mais anônimos, não mais tão vagamente preocupados com a realidade. E lá estamos mudando o mundo. Não como os estudantes de 68, mas como as donas de casa, conversando com os chatos e servindo o cafezinho morno.