Em 1994 surgia um dos melhores albuns do hardcore/indie da década passada: Hand Me Down, do Falling Forward. Sei que só dois leitores - e isso não acidentalmente, pois a conhecemos juntos - conhecem a banda, mas mesmo assim, ok, voilá. Sou particularmente fã dessa descendente menor do Elliott por dois motivos: (i) lá está o frescor que já não têm mais as bandas alternativas de hoje, e (ii) os caras sabiam o que estavam cantando (reparem na letra de Character, que começa com um memorável "Ill rage a war against myself"). E não adianta ir atrás do CD: ele deixou de ser editado em 2000 e nunca mais, creio, o será. Mas todo o disco está disponível para download aqui. É para ficar na história das coisas menores.
* * *
Reconciliei-me com os últimos artistas contemporâneos ao visitar no domingo o Brandhorst Museum, o mais recente museu de Munique, um dos melhores (e menores!) que já visitei. A arquitetura é uma obra de arte que não fica a dever ao conteúdo exposto (é a construção perfeita para quem gosta de fotografia arquitetônica, a propósito). Você sabe onde está o tempo todo, o que não é comum - ainda mais para gente perdida como eu. Além de agradável, o edifício é bonito (!).
Lá estão muitos trabalhos de Warhol para agradar o público caça-celebridades. Mas o melhor é uma grande coleção de obras do carro-chefe Cy Twombly, que ocupa, como é de lei, enormes salas e passages. Quem sabe um dia ele não ilustra um número da Dicta? Além disso, Christopher Wool, Bruce Nauman, Sigmar Polke. E, de brinde, um trabalho daquele que é talvez o maior, e o mais caro, artista plástico vivo: Gerhard Richter (há muitas coisas dele aqui; hoje estou me sentido generoso). E um vídeo anticomunista armênio (?) cujo autor não consegui identificar.
Domingo, Junho 21, 2009
Segunda-feira, Junho 08, 2009
Costurando cadáveres de arminhos
Ter leitores sensatos é o sonho de qualquer escritor.
* * *
Os leitores definem, em última instância, o que será de uma obra. Se ninguém tivesse compreendido Machado de Assis ou (o que dá no mesmo) ele tivesse sido esquecido, a sua obra possuiria, sim, um valor intrínseco potencial - mas o que é a literatura desconhecida senão, na prática, um fenômeno socialmente nulo?
Não haveria Cícero se os anônimos eruditos medievais e os Humanistas fossem idiotas: eles teriam feito a alegria das traças com os manuscritos e boa parte da cultura latina teria virado, literalmente, merda Lepismae saccharinae (cocô de traça).
* * *
Muitas vezes se ouve dizer que alguém escreve para si. Isso está longe de ser um problema. Alguns deles farão parte dos "clássicos do futurível", seja por decisão pessoal, seja por acidente (Os Lusíadas quase se perderam, Kafka mandou expressamente queimar seus manuscritos mas foi felizmente desobedecido, etc.). (E eu diria que o espírito que move os que escrevem para si é muito mais nobre do que o dos que querem ser conhecidos a todo custo. Aliás, não seria essa despreocupação um atributo essencial do escritor?) Mas nós torcemos para que os bons autores sejam divulgados, trasformem e sejam transformados pelos seus leitores. Infelizmente, só vivemos em uma solitária dimensão do espaço-tempo.
E suspeito que ela não seja paralela a nenhuma outra.
* * *
Por um lado, acreditar que as infinitas bifurcações temporais gerem infinitos universos paralelos é substancializar ilicitamente a imaginação matemática.
Isso se assemelha ao furado argumento antológico de S. Anselmo: pensar que Deus existe porque é a coisa mais perfeita que se pode imaginar e que, se for mesmo perfeita, deve ter o atributo da existência (!), é o mesmo que pensar que a escolha entre duas (na prática, infinitas) alternativas para uma ação - e aqui nos atemos apenas à dimensão da escolha livre humana - não é definitiva, e que a alternativa não escolhida teria vida própria e portanto habitaria um universo paralelo.
Às vezes tenho a impressão de que muita gente acredita, inconscientemente, viver num universo paralelo, mesmo que nunca tenha formulado expressamente, de si para si, esse problema.
A vida real, entretanto, não admite esse raciocínio. Na prática, só nos preocupamos com os resultados das nossas escolhas para essa vida que se desenvolve diante dos nossos olhos. Os outros eus-paralelos ("o que seria de mim se...") são, ou deveriam ser, ignorados.
Por outro lado, a imaginação certamente ajuda quando, inspirando-se num eu-paralelo, encontra energia para forjar, à sua imagem, um novo Eu, não passado, mas a partir de agora. É quando o futurível deixa de ser futurível.
Enquanto é absurdo contemplar "o que eu teria sido se", é algo muito fértil contemplar "o que eu serei se", desde que eu esteja disposto a colocar os meios pertinentes. À força de imaginar, forjamos um futuro real: podemos vir a habitar um "universo-que-seria-paralelo" escolhendo livremente a existência - dentro das limitações de costume (basta ter em conta que não somos deuses) - que queremos.
A nossa história pessoal mostra - espero que os leitores encontrem exemplos - que coisas absurdas, que mal podíamos acreditar, aconteceram. Talvez não sejam muitos os nossos exemplos. Penso, aliás, que poderiam ser mais numerosos. O que distingue um medíocre de um excelente (pensem em algo interessante, e não no José Wilker) é essa capacidade de imaginar coisas absurdas e torná-las reais.
Definitivamente, a vida dos time travellers é mais interessante.
------
P. S. progaganda: A Dicta 3 já está em segundo lugar no ranking de vendas não-ficção na Cultura.
* * *
Os leitores definem, em última instância, o que será de uma obra. Se ninguém tivesse compreendido Machado de Assis ou (o que dá no mesmo) ele tivesse sido esquecido, a sua obra possuiria, sim, um valor intrínseco potencial - mas o que é a literatura desconhecida senão, na prática, um fenômeno socialmente nulo?
Não haveria Cícero se os anônimos eruditos medievais e os Humanistas fossem idiotas: eles teriam feito a alegria das traças com os manuscritos e boa parte da cultura latina teria virado, literalmente, merda Lepismae saccharinae (cocô de traça).
* * *
Muitas vezes se ouve dizer que alguém escreve para si. Isso está longe de ser um problema. Alguns deles farão parte dos "clássicos do futurível", seja por decisão pessoal, seja por acidente (Os Lusíadas quase se perderam, Kafka mandou expressamente queimar seus manuscritos mas foi felizmente desobedecido, etc.). (E eu diria que o espírito que move os que escrevem para si é muito mais nobre do que o dos que querem ser conhecidos a todo custo. Aliás, não seria essa despreocupação um atributo essencial do escritor?) Mas nós torcemos para que os bons autores sejam divulgados, trasformem e sejam transformados pelos seus leitores. Infelizmente, só vivemos em uma solitária dimensão do espaço-tempo.
E suspeito que ela não seja paralela a nenhuma outra.
* * *
Por um lado, acreditar que as infinitas bifurcações temporais gerem infinitos universos paralelos é substancializar ilicitamente a imaginação matemática.
Isso se assemelha ao furado argumento antológico de S. Anselmo: pensar que Deus existe porque é a coisa mais perfeita que se pode imaginar e que, se for mesmo perfeita, deve ter o atributo da existência (!), é o mesmo que pensar que a escolha entre duas (na prática, infinitas) alternativas para uma ação - e aqui nos atemos apenas à dimensão da escolha livre humana - não é definitiva, e que a alternativa não escolhida teria vida própria e portanto habitaria um universo paralelo.
Às vezes tenho a impressão de que muita gente acredita, inconscientemente, viver num universo paralelo, mesmo que nunca tenha formulado expressamente, de si para si, esse problema.
A vida real, entretanto, não admite esse raciocínio. Na prática, só nos preocupamos com os resultados das nossas escolhas para essa vida que se desenvolve diante dos nossos olhos. Os outros eus-paralelos ("o que seria de mim se...") são, ou deveriam ser, ignorados.
Por outro lado, a imaginação certamente ajuda quando, inspirando-se num eu-paralelo, encontra energia para forjar, à sua imagem, um novo Eu, não passado, mas a partir de agora. É quando o futurível deixa de ser futurível.
Enquanto é absurdo contemplar "o que eu teria sido se", é algo muito fértil contemplar "o que eu serei se", desde que eu esteja disposto a colocar os meios pertinentes. À força de imaginar, forjamos um futuro real: podemos vir a habitar um "universo-que-seria-paralelo" escolhendo livremente a existência - dentro das limitações de costume (basta ter em conta que não somos deuses) - que queremos.
A nossa história pessoal mostra - espero que os leitores encontrem exemplos - que coisas absurdas, que mal podíamos acreditar, aconteceram. Talvez não sejam muitos os nossos exemplos. Penso, aliás, que poderiam ser mais numerosos. O que distingue um medíocre de um excelente (pensem em algo interessante, e não no José Wilker) é essa capacidade de imaginar coisas absurdas e torná-las reais.
Definitivamente, a vida dos time travellers é mais interessante.
------
P. S. progaganda: A Dicta 3 já está em segundo lugar no ranking de vendas não-ficção na Cultura.
Segunda-feira, Junho 01, 2009
Infinitary mathematics is a fantasy world in which we fantasize about the completions of processes which, realistically, we can only begin
Aquela expressão antiquada acender uma vela a São Miguel e outra ao diabo parece afirmar, não um dogma, mas uma máxima da experiência.
A opção por manter uma espécie de duplipensar moral, além do custo emocional, só pode ser sustentada por uma espécie de filosofia: o niilismo radical, que consegue aparentemente conciliar uma ausência total de fundamentos para o agir com as exigências da vida normal. Na prática, ninguém faria negócios com um niilista, ninguém gostaria de ser seu amigo, etc etc. O zeitgeist tornou-o, entretanto, alguém interessante. Na pior das hipóteses, o niilista nunca se assume como tal (estou falando de pessoas concretas, que existem e respiram, e não de categorias filosóficas).
Uma espécie de voluntarismo sustenta e conserva a opção niilista: apesar de todas as evidências em contrário extraídas da vida prática com pertubadora evidência, mantenho essa contradição e essa paradoxal tensão (the sort of tension that equals zero) simplesmente porque quero. Lembro-me de ter usado repetidas vezes esse argumento interior, porque fui eu mesmo um niilista radical com todas as letras. Experimenta-se então, sem dramas (como queira), o que nos papers sobre o tema costuma chamar-se "abismo ontológico", e é quase impossível sequer respirar intelectualmente. Pode-se empurrar com a barriga, mas a situação é tão absurda, que a atividade mais nobre e interessante passa a ser algo que defini como "contemplar paredes", algo que desemboca, se a pessoa tiver coragem o suficiente, numa estética do vazio. Essa situação foi suficientemente descrita na literatura contemporânea, com destaque para os romances de Don DeLillo.
Por uma espécie de instinto de sobrevivência, poucos têm coragem de levar o niilismo até as últimas consequências. Trata-se de uma incapacidade crônica de formular claramente a própria opção intelectual.
São muitos os obstáculos que se erguem diante de quem procura formular claramente a sua própria opção intelectual niilista. Um deles é o próprio espírito do tempo. O que era antes um passatempo exclusivo de pessoas inteligentes, teóricos da arte e filósofos tornou-se pelo menos desde os anos 80 uma alternativa para as massas. Não se exige do consumidor dotes intelectuais ou coragem. Basta assistir a um reality show ou a um comercial para se expor a doses cavalares de niilismo - como dizia há muito tempo Baudrillard, a publicidade veicula essa filosofia do nada através de imagens aprazíveis e aparentemente inofensivas, e praticamente não há como fugir dela.
Muitas vezes o simples ato de realizar essa formulação é a única saída para encontrar o sentido que falta. Lamento informar, para os que ainda não sacaram, que não basta recorrer a uma bibliografia anti-niilista, ou o que for. É preciso contato com pessoas que, de uma forma ou de outra, encontraram o caminho de volta - naturalmente não me refiro aos chatos "conversos" ou a proselitistas do otimismo - ou que nunca caíram nele.
Platão afirma em uma de suas cartas justamente isso: o que nos faz realmente cair do cavalo é o contato (aqui ele utiliza uma palavra grega intraduzível, algo que lembra vagamente "trato", "comércio" ou "intercâmbio") com pessoas interessantes, e não os livros. Eu diria que é a amizade; e se você não está pronto para acrescentar ao termo amizade conotações meramente sentimentais ou francamente equivocadas, poderá ter uma idéia do que quero dizer.
A imunidade à poluição semântica, assim como o gosto pela alimentação normal (v. g., carne, massas, queijo; café, vinho, cerveja), é nada mais do que sinal de saúde.
A opção por manter uma espécie de duplipensar moral, além do custo emocional, só pode ser sustentada por uma espécie de filosofia: o niilismo radical, que consegue aparentemente conciliar uma ausência total de fundamentos para o agir com as exigências da vida normal. Na prática, ninguém faria negócios com um niilista, ninguém gostaria de ser seu amigo, etc etc. O zeitgeist tornou-o, entretanto, alguém interessante. Na pior das hipóteses, o niilista nunca se assume como tal (estou falando de pessoas concretas, que existem e respiram, e não de categorias filosóficas).
Uma espécie de voluntarismo sustenta e conserva a opção niilista: apesar de todas as evidências em contrário extraídas da vida prática com pertubadora evidência, mantenho essa contradição e essa paradoxal tensão (the sort of tension that equals zero) simplesmente porque quero. Lembro-me de ter usado repetidas vezes esse argumento interior, porque fui eu mesmo um niilista radical com todas as letras. Experimenta-se então, sem dramas (como queira), o que nos papers sobre o tema costuma chamar-se "abismo ontológico", e é quase impossível sequer respirar intelectualmente. Pode-se empurrar com a barriga, mas a situação é tão absurda, que a atividade mais nobre e interessante passa a ser algo que defini como "contemplar paredes", algo que desemboca, se a pessoa tiver coragem o suficiente, numa estética do vazio. Essa situação foi suficientemente descrita na literatura contemporânea, com destaque para os romances de Don DeLillo.
Por uma espécie de instinto de sobrevivência, poucos têm coragem de levar o niilismo até as últimas consequências. Trata-se de uma incapacidade crônica de formular claramente a própria opção intelectual.
São muitos os obstáculos que se erguem diante de quem procura formular claramente a sua própria opção intelectual niilista. Um deles é o próprio espírito do tempo. O que era antes um passatempo exclusivo de pessoas inteligentes, teóricos da arte e filósofos tornou-se pelo menos desde os anos 80 uma alternativa para as massas. Não se exige do consumidor dotes intelectuais ou coragem. Basta assistir a um reality show ou a um comercial para se expor a doses cavalares de niilismo - como dizia há muito tempo Baudrillard, a publicidade veicula essa filosofia do nada através de imagens aprazíveis e aparentemente inofensivas, e praticamente não há como fugir dela.
Muitas vezes o simples ato de realizar essa formulação é a única saída para encontrar o sentido que falta. Lamento informar, para os que ainda não sacaram, que não basta recorrer a uma bibliografia anti-niilista, ou o que for. É preciso contato com pessoas que, de uma forma ou de outra, encontraram o caminho de volta - naturalmente não me refiro aos chatos "conversos" ou a proselitistas do otimismo - ou que nunca caíram nele.
Platão afirma em uma de suas cartas justamente isso: o que nos faz realmente cair do cavalo é o contato (aqui ele utiliza uma palavra grega intraduzível, algo que lembra vagamente "trato", "comércio" ou "intercâmbio") com pessoas interessantes, e não os livros. Eu diria que é a amizade; e se você não está pronto para acrescentar ao termo amizade conotações meramente sentimentais ou francamente equivocadas, poderá ter uma idéia do que quero dizer.
A imunidade à poluição semântica, assim como o gosto pela alimentação normal (v. g., carne, massas, queijo; café, vinho, cerveja), é nada mais do que sinal de saúde.
Assinar:
Postagens (Atom)
