Olhando para trás, acho que o jazz sempre foi o meu âmbito musical favorito. Mas para ouvir jazz, que é uma coisa profissional, é preciso tempo, discernimento e paciência. Atualmente estou em falta no que diz respeito aos três requisitos, de modo que, quando surge a necessidade, ao invés de expandir o meu círculo, permaneço nos clássicos John Coltrane, Charlie Parker, Ornette Coleman, Miles Davis e Chet Baker (do qual aprendi a gostar com o memorável Fernando A B); mas vez ou outra sucumbo aos anos 70 escandinavos - especialmente Jan Garbarek, com o tema de jazz mais belo já realizado (My Song, com o fantástico Keith Jarrett) -, ao baterista mágico Jack DeJohnette, à guitarra de Pat Metheny.
E aos que não gostam de jazz: nunca é tarde. Mesmo aos sem-paciência, não custa tentar.
* * *
A música tem mesmo algo de mágico. Mas ela só é efetivamente mágica quando não se põe nela todas as nossas esperanças.
A arte não vai te salvar. Essa é uma dura verdade, que passou a se esconder depois que criaram o mito do gênio no séc. XIX.
Domingo, Maio 31, 2009
Quinta-feira, Maio 28, 2009
Terça-feira, Maio 26, 2009
Voll krass, Alder!

Para quem ainda não sabe, o número 3 da Dicta será lançado nos próximos dias. Eis a capa.
Foi uma surpresa, até para mim, como as coisas se passaram. A entrevista com o ex-presidente FHC é tudo menos uma entrevista comum. Cremos ter feito - os créditos vão para o entrevistador e para o time da Dicta, que formulou as perguntas com um grande cuidado - um bom trabalho de jornalismo (cabe todavia ao leitor julgar), que implica deixar o sensacionalismo de lado e ir às coisas importantes, sem tirar nada do contexto.
Fiquei muito contente também com o artigo do Olavo, que ainda não tive oportunidade de ler. Os livros do Mario Ferreira dos Santos foram meu primeiro guia quando comecei a estudar metafísica há mais ou menos 7 anos atrás. E por aí vai.
Teremos surpresas também por ocasião do lançamento, que será muito diferente do "habitual".
* * *
Peço desculpas, se é que alguém percebeu, pelo longo tempo sem postar. Eu costumo me desconectar fisicamente da Internet - meu notebook está voluntariamente sem acesso - para poder trabalhar em paz. E eis que -
* * *
Acabo de ler Das Gefängnis der Freiheit de Michael Ende (1992), excelente livro de contos quase que expressamente dedicado a Jorge Luis Borges. Não tenho notícias da sua tradução para o português - o que é uma pena -, mas é possível conferir a tradução espanhola, La prisión de la libertad.
Não é difícil perceber que todos os contos estão relacionados entre si, como era de se esperar. Todos são bons e a melhor coisa é lê-los na sequencia disposta no livro, começando pela história de Cyril, filho fleumático de um rico diplomata que procura, sem querer, algum sentido para a sua vida, e indo até a de Wegweiser (o "Homem Placa", entre muitas outras identidades), um homem legendário cujo nascimento e morte estão ligados por um raio. É praticamente impossível voltar ileso para o mundo real, mas a leitura é mesmo assim fortemente recomendada.
Em certo sentido, Ende entende melhor das coisas do que Borges, embora seja talvez inferior do ponto de vista literário. Os gnósticos escrevem melhor, malgrado a sua confusão. Borges brinca, apesar de parecer um homem sisudo (ele dizia que, se pudesse reencarnar, reincidiria com gosto nos mesmos erros). Michael Ende é uma criança que leva a vida realmente a sério.
Tanto que já comecei a ler Momo (1973) e não consigo mais parar.
Descobri há pouco tempo que Michael Ende morreu em 1995. Tinham me dito que ele estava vivo, eu queria continuar nessa ilusão, mas o Google o matou de câncer de estômago.
Domingo, Maio 10, 2009
E huuns e outros todos fallavam desvairadas razõoes sobresto
Um dos melhores artigos que li do Olavo de Carvalho. Ele explica o que se deve fazer para se adquirir uma formação filosófica. Não é fácil, mas é o único caminho. As dicas dele se aplicam não só à filosofia, mas a qualquer tipo de estudo sério, guardadas as especifidades. Impagável a parte onde ele explica o método que seu professor utilizava.
Embora em pequena quantidade, também recebo um ou outro e-mail com pedidos de bibliografia e etc. Reenvio os leitores ao artigo do filósofo, que tem toda a competência para esclarecer esse problema (mas tratem de não amolar o pobre Olavo!).
* * *
Acho que isso também ajuda: desfazer-se de uma visão "reclamona" do mundo, deixar a velhice de lado. Essa atitude é extremamente prejudicial, pois impede a pessoa de começar a pensar. A impressão é que tudo está perdido e que não há nada a fazer. Sabemos que não é assim. O mundo é como é, nosso ambiente é esse mesmo, e aí devemos nos esforçar para ser melhores, calar e trabalhar. A Europa não é nenhuma espécie de "último baluarte da cultura" (para os poucos que ainda alimentam semelhante esperança), e o Brasil nunca foi uma terra boa para se pensar. É sempre hora de ligar o "I don't give a f***", com o perdão da expressão.
Não advogo uma visão ingênua do mundo, como vocês já estão carecas de saber (alguns literalmente). Mas sou a favor do otimismo esperto, se é que podemos chamá-lo assim. O pessimismo sempre teve mais glamour. É muito mais chique reclamar e dar uma de sombrio. Não sei, essa é a minha natureza. Embora não me sinta tão bem, gosto de dias nublados, clipes do The Cure (e agora, a música do Bat For Lashes), e até gostava de usar preto; afinal de contas, meu avô sempre reclamou do Sol porque a seca era prejudicial à fazenda, e meu pai só escutava música anglo-saxônica. Sempre achei que as "pessoas felizes" fossem meio babacas. Preconceito besta.
Mas isso é uma questão de propensão natural. Só crescemos contrariando um pouco nossas tendências, só por birra, e não precisava nem o Confúcio tê-lo dito (para citar um autor contemporâneo, entre muitos outros). O bom mesmo é ser imprevisível.
* * *
Acabo de voltar de uma exposição chamada Luxus und Decandenz - Römisches Leben am Golf von Neapel, com descobertas arqueológicas de Pompéia vindas de Nápoles, tudo muito bem disposto e organizado. Não sei porque, mas havia aquele toque pós-moderno. Entre os souvenirs, um ímã de geladeira com a inscrição o tempora o mores, sabonetes e audiobooks com obras de Sêneca. Ouvi alguém dizendo, "mãe, eu quero um sabonete do Horácio", e lembrei-me imediatamente da Turma da Mônica.
* * *
Embora a Europa não seja mais o que foi, ainda vejo gente estudando papiros, e falando deles em reuniões informais. Tenho uma colega de pouco mais de 20 anos que passa o dia estudando papiros gregos, e que parece ter saído do séc. XIX. Sou a favor do Estado conceder bolsa de estudos para 1 papirologista cada vez que 1 novo irmão do Eminem iniciar a sua carreira no rap. É a lei do equilíbrio universal. Quando não houver mais gente que saiba escrever sem errar oxyrhynchus papyri (mesmo que tenha esquecido o que significa), o mundo terá embarcado dessa para uma melhor. Eu lamento.
Oká, para manter a cultura viva, deixo um link para o site oxfordiano onde se pode consultar de graça imagens dos papiros mencionados. Agora, cuidado. No momento em que a página for acessada, um outro irmão do Eminem largará a Ilíada* e dirá um doloroso Yo!, lembrando que, quando era bebê, cuspiam na sua cerveja enquanto ele fingia dormir a sesta.
Então ferrar-nos-emos, sem qualquer menção ao estado decadente do rock.
* (23) Coincidentemente, as primeiras palavras da Iliáda são Eminem áeide theà, e assim por diante.
Embora em pequena quantidade, também recebo um ou outro e-mail com pedidos de bibliografia e etc. Reenvio os leitores ao artigo do filósofo, que tem toda a competência para esclarecer esse problema (mas tratem de não amolar o pobre Olavo!).
* * *
Acho que isso também ajuda: desfazer-se de uma visão "reclamona" do mundo, deixar a velhice de lado. Essa atitude é extremamente prejudicial, pois impede a pessoa de começar a pensar. A impressão é que tudo está perdido e que não há nada a fazer. Sabemos que não é assim. O mundo é como é, nosso ambiente é esse mesmo, e aí devemos nos esforçar para ser melhores, calar e trabalhar. A Europa não é nenhuma espécie de "último baluarte da cultura" (para os poucos que ainda alimentam semelhante esperança), e o Brasil nunca foi uma terra boa para se pensar. É sempre hora de ligar o "I don't give a f***", com o perdão da expressão.
Não advogo uma visão ingênua do mundo, como vocês já estão carecas de saber (alguns literalmente). Mas sou a favor do otimismo esperto, se é que podemos chamá-lo assim. O pessimismo sempre teve mais glamour. É muito mais chique reclamar e dar uma de sombrio. Não sei, essa é a minha natureza. Embora não me sinta tão bem, gosto de dias nublados, clipes do The Cure (e agora, a música do Bat For Lashes), e até gostava de usar preto; afinal de contas, meu avô sempre reclamou do Sol porque a seca era prejudicial à fazenda, e meu pai só escutava música anglo-saxônica. Sempre achei que as "pessoas felizes" fossem meio babacas. Preconceito besta.
Mas isso é uma questão de propensão natural. Só crescemos contrariando um pouco nossas tendências, só por birra, e não precisava nem o Confúcio tê-lo dito (para citar um autor contemporâneo, entre muitos outros). O bom mesmo é ser imprevisível.
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Acabo de voltar de uma exposição chamada Luxus und Decandenz - Römisches Leben am Golf von Neapel, com descobertas arqueológicas de Pompéia vindas de Nápoles, tudo muito bem disposto e organizado. Não sei porque, mas havia aquele toque pós-moderno. Entre os souvenirs, um ímã de geladeira com a inscrição o tempora o mores, sabonetes e audiobooks com obras de Sêneca. Ouvi alguém dizendo, "mãe, eu quero um sabonete do Horácio", e lembrei-me imediatamente da Turma da Mônica.
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Embora a Europa não seja mais o que foi, ainda vejo gente estudando papiros, e falando deles em reuniões informais. Tenho uma colega de pouco mais de 20 anos que passa o dia estudando papiros gregos, e que parece ter saído do séc. XIX. Sou a favor do Estado conceder bolsa de estudos para 1 papirologista cada vez que 1 novo irmão do Eminem iniciar a sua carreira no rap. É a lei do equilíbrio universal. Quando não houver mais gente que saiba escrever sem errar oxyrhynchus papyri (mesmo que tenha esquecido o que significa), o mundo terá embarcado dessa para uma melhor. Eu lamento.
Oká, para manter a cultura viva, deixo um link para o site oxfordiano onde se pode consultar de graça imagens dos papiros mencionados. Agora, cuidado. No momento em que a página for acessada, um outro irmão do Eminem largará a Ilíada* e dirá um doloroso Yo!, lembrando que, quando era bebê, cuspiam na sua cerveja enquanto ele fingia dormir a sesta.
Então ferrar-nos-emos, sem qualquer menção ao estado decadente do rock.
* (23) Coincidentemente, as primeiras palavras da Iliáda são Eminem áeide theà, e assim por diante.
Domingo, Maio 03, 2009
Como tornar-se um cara from hell
Tenho um velho hábito: de tanto cantar uma música internamente, acabo alterando a letra, e depois, muito tempo depois, escuto a música original e acho estranho, resmungando que o filho da puta alterou a letra.
Oh vida imanente.
* * *
Não quero canonizar o bom senso, mas o fato é que é estranho ouvir gente reclamando que, "enquanto tanta gente passa mal", alguém possa se preocupar mais com a saúde e o bem-estar da família e dos amigos.
Nós somos nossos círculos, por mais amplos que sejam. Não nossos grupelhos, por Júpiter Quirino, como explico abaixo. O "acaso" cria a nossa teia de relações, e é essa teia de relações a mais importante - ela gera os nossos deveres diante dos outros. A ela se restringe a nossa preocupação.
Paradoxo: esse círculo deve ser infinitamente aberto, pronto para transformar estranhos em amigos ou, pelo menos, em colegas ou em gente digna de receber a nossa estima e cuidado. Sem essa abertura, somos atores de novela ou membros de seitas, o que constituiria uma tragédia sem par. Nesse sentido o santo, em moldes não caricaturais, é o exato oposto do sectário, pois o que o define é justamente essa abertura incondicional. E no entanto são os santos os primeiros a ser guilhotinados (confira os últimos capítulos da novela de Thomas More).
Pensar assim é - não por essa razão - uma condição para viver em paz, sem angústias franco-revolucionárias.
A isso contraponho o amor à Humanidade, de que ninguém é capaz em sentido estrito.
Muitas seitas são, a propósito, a personificação desse amor abstrato que viola a humanidade em favor da Humanidade.
Preferir sistematicamente "membros do nosso grupo" aos outros, por princípio, é um grave erro de nuance diante princípio que esbocei acima. Essa atitude implica preferir (não digo afetivamente, mas 'sectariamente') abertamente certas pessoas porque aceitaram fazer parte do meu grupo, o que é lançar um elemento estranho de voluntariedade numa esfera que é, por definição, aberta à Providência (ao acaso, para os ateus) e à gratuidade.
Por isso a formação de grupos, quando inevitável, deve sempre obedecer a esse princípio pessoal, e não organizacional, de abertura ao Outro. Fazer parte de uma seita é desconectar-se dos círculos naturais e fechar a minha teia de relações, transformando-a em algo impessoal.
Os exemplos são abundantes. A crítica ao comunismo e ao politicamente correto pode converter-se em um grupo ideológico que descarta pessoas que se enquadram, como falantes explícitos ou implícitos a favor daquelas ideologias, nessa crítica. E ela se converte então em alguma espécie de ódio, não em um ódio caricatural que só existe nos livros, mas numa antipatia que restringe aquele círculo natural apenas aos que, por algum motivo, fazem parte do grupo (os amigos, em oposição aos inimigos, semelhantemente à política de Carl Schmidt). Já vi gente odiando até a mãe porque ela seria "esquerdista". É muito fácil passar de uma atitude crítica, que pode e deve ser sensata, a um sentimento de repulsa por pessoas concretas. Mas o ser fácil nunca é desculpa. Muitas vezes até esse sentimento de repulsa estaria entre os principais objetos da crítica, mas na prática o grupo "anti-ideológico" o assume com gosto, fechando os olhos para os seus erros. E então o "objeto criticado" se identifica com o crítico: eles passam a ser um só, entram no mesmo saco, embora se odeiem mutuamente.
Quantos exemplos dessa crítica espelhada.
* * *
E não é à toa que o individualismo moderno tenha gerado sectarismos sem fim. As pessoas se sentem como indivíduos, mas nem pedem licença para fundar a sua panela e viver nela como se fosse um microcosmo perfeito.
Não há diferenças essenciais entre o individualismo e o coletivismo. Por isso os seres mais iguais e sem personalidade que conheci eram, não consumidores-padrão, mas gente do mundo underground, "alheios às convenções do grupo dominante", id est, infinitamente convencionais.
E não basta a consciência de que o anti-convencionalismo é mais um convencionalismo. Isso é ridículo e só um adolescente poderia dizê-lo, com seus 15 ou com seus 40 anos de inexperiência. A personalidade radicalmente própria não se constrói com mais "consciência", mas com uma luta concreta por encarnar valores autênticos (posse de si, firmeza, prudência, justiça, mesmo que se use piercings e se tenha tatuagens de caracteres chineses, coisa que passou de moda há séculos).
É fácil ler muitos livros e se tornar consciente das limitações do mundo underground, que prega um anticonvencionalismo ultraconservador. O difícil é sorrir quando as coisas vão mal, tomar decisões, jogar a cocaína fora, ter filhos, falar palavrões sem achar que se está abafando. A heterogeneidade dos exemplos falam, isso vai sem dizer, de um universo novo.
As ovelhas se distinguem pelo seu horror à sua condição de ovelhas, mas principalmente pelo fato de que não mexem nem um mindinho para sair dessa situação de servilismo.
Em resumo, parece-me que o saudoso Jim Morrison foi uma ovelha. Lamentamos a ovelha, mas que os mortos enterrem os seus mortos. Isso não me faz odiá-lo.
E nem odiar o black metal polonês de vanguarda-roupa (que sim, existe).
Oh vida imanente.
* * *
Não quero canonizar o bom senso, mas o fato é que é estranho ouvir gente reclamando que, "enquanto tanta gente passa mal", alguém possa se preocupar mais com a saúde e o bem-estar da família e dos amigos.
Nós somos nossos círculos, por mais amplos que sejam. Não nossos grupelhos, por Júpiter Quirino, como explico abaixo. O "acaso" cria a nossa teia de relações, e é essa teia de relações a mais importante - ela gera os nossos deveres diante dos outros. A ela se restringe a nossa preocupação.
Paradoxo: esse círculo deve ser infinitamente aberto, pronto para transformar estranhos em amigos ou, pelo menos, em colegas ou em gente digna de receber a nossa estima e cuidado. Sem essa abertura, somos atores de novela ou membros de seitas, o que constituiria uma tragédia sem par. Nesse sentido o santo, em moldes não caricaturais, é o exato oposto do sectário, pois o que o define é justamente essa abertura incondicional. E no entanto são os santos os primeiros a ser guilhotinados (confira os últimos capítulos da novela de Thomas More).
Pensar assim é - não por essa razão - uma condição para viver em paz, sem angústias franco-revolucionárias.
A isso contraponho o amor à Humanidade, de que ninguém é capaz em sentido estrito.
Muitas seitas são, a propósito, a personificação desse amor abstrato que viola a humanidade em favor da Humanidade.
Preferir sistematicamente "membros do nosso grupo" aos outros, por princípio, é um grave erro de nuance diante princípio que esbocei acima. Essa atitude implica preferir (não digo afetivamente, mas 'sectariamente') abertamente certas pessoas porque aceitaram fazer parte do meu grupo, o que é lançar um elemento estranho de voluntariedade numa esfera que é, por definição, aberta à Providência (ao acaso, para os ateus) e à gratuidade.
Por isso a formação de grupos, quando inevitável, deve sempre obedecer a esse princípio pessoal, e não organizacional, de abertura ao Outro. Fazer parte de uma seita é desconectar-se dos círculos naturais e fechar a minha teia de relações, transformando-a em algo impessoal.
Os exemplos são abundantes. A crítica ao comunismo e ao politicamente correto pode converter-se em um grupo ideológico que descarta pessoas que se enquadram, como falantes explícitos ou implícitos a favor daquelas ideologias, nessa crítica. E ela se converte então em alguma espécie de ódio, não em um ódio caricatural que só existe nos livros, mas numa antipatia que restringe aquele círculo natural apenas aos que, por algum motivo, fazem parte do grupo (os amigos, em oposição aos inimigos, semelhantemente à política de Carl Schmidt). Já vi gente odiando até a mãe porque ela seria "esquerdista". É muito fácil passar de uma atitude crítica, que pode e deve ser sensata, a um sentimento de repulsa por pessoas concretas. Mas o ser fácil nunca é desculpa. Muitas vezes até esse sentimento de repulsa estaria entre os principais objetos da crítica, mas na prática o grupo "anti-ideológico" o assume com gosto, fechando os olhos para os seus erros. E então o "objeto criticado" se identifica com o crítico: eles passam a ser um só, entram no mesmo saco, embora se odeiem mutuamente.
Quantos exemplos dessa crítica espelhada.
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E não é à toa que o individualismo moderno tenha gerado sectarismos sem fim. As pessoas se sentem como indivíduos, mas nem pedem licença para fundar a sua panela e viver nela como se fosse um microcosmo perfeito.
Não há diferenças essenciais entre o individualismo e o coletivismo. Por isso os seres mais iguais e sem personalidade que conheci eram, não consumidores-padrão, mas gente do mundo underground, "alheios às convenções do grupo dominante", id est, infinitamente convencionais.
E não basta a consciência de que o anti-convencionalismo é mais um convencionalismo. Isso é ridículo e só um adolescente poderia dizê-lo, com seus 15 ou com seus 40 anos de inexperiência. A personalidade radicalmente própria não se constrói com mais "consciência", mas com uma luta concreta por encarnar valores autênticos (posse de si, firmeza, prudência, justiça, mesmo que se use piercings e se tenha tatuagens de caracteres chineses, coisa que passou de moda há séculos).
É fácil ler muitos livros e se tornar consciente das limitações do mundo underground, que prega um anticonvencionalismo ultraconservador. O difícil é sorrir quando as coisas vão mal, tomar decisões, jogar a cocaína fora, ter filhos, falar palavrões sem achar que se está abafando. A heterogeneidade dos exemplos falam, isso vai sem dizer, de um universo novo.
As ovelhas se distinguem pelo seu horror à sua condição de ovelhas, mas principalmente pelo fato de que não mexem nem um mindinho para sair dessa situação de servilismo.
Em resumo, parece-me que o saudoso Jim Morrison foi uma ovelha. Lamentamos a ovelha, mas que os mortos enterrem os seus mortos. Isso não me faz odiá-lo.
E nem odiar o black metal polonês de vanguarda-roupa (que sim, existe).
Sexta-feira, Maio 01, 2009
Horror Movie
Esse blog, se contamos as mudanças de nome, já tem quase 7 anos, mais ou menos a idade da minha irmã, que faz aniversário nesses dias. Nem tudo é instável. Os acidentes mudam, a essência permanece.
* * *
Basicamente, por que motivo insistir tanto na idéia de estar preso à realidade, repetindo o velho mote realista? O problema consiste em deixar de dar atenção a um mote porque ele soa velho e sem sentido.
As pessoas que pensam muito costumam viver duas vidas: uma vida real, em que se preocupam com os outros, ao menos quando se vêem coagidos a fazê-lo, em que querem ser felizes e acreditam numa objetividade do aqui e agora; e uma vida imanente, em que preferem prescindir dos fatos e ater-se a esquemas mentais porque são belos, ou porque são o resultado de anos de estudo.
A vida imanente é extremamente perigosa, e não só no campo moral. "As coisas não deveriam ser assim; isso é provavelmente alguma encruzilhada lacaniana que merece exame". Crê-se acima das responsabilidades, acima das exigências reais - com base na idéia de que tudo pode ser consertado depois, no campo mental. E então a procrastinação, a fuga, a angústia. Tudo procede do preferir os conceitos àquilo que a experiência nos oferece.
Isso não significa que devamos jogar fora os conceitos. Todos os erros básicos de princípio em filosofia consistem justamente nesse "então vamos abolir esse negócio de conceito", ou então "dane-se a realidade", posições aparentemente opostas, mas que partem da idéia de que, se algo deu errado com o nosso time, então é necessário apostar todas as fichas no time adversário.
Os conceitos exigem um teste permanente, uma atualização constante de acordo com os dados da experiência. Ir dos fatos aos princípios e dos princípios aos fatos; e transformar aquilo que poderia ser só um esquema mental em algo novo, operante e vital, sem medo de abandonar velhos preconceitos e de adquirir novos.
Por mais que tudo pareça ruir, algumas noções sempre permanecem: o princípio da não-contradição, a analogia do ser, diferenças fundamentais entre substância e acidente (por mais que se esperneie, uma seringueira é uma seringueira, e não uma acácia, e do mesmo modo uma seringueira pode ter 2 anos ou 100 anos de idade sem perder a sua identidade), entre forma e matéria, e assim por diante.
Não podemos abandonar uma verdade por ser ela antipática, e nem deixar de lutar por tornar simpático aos nossos olhos aquilo que, por ser real, é em si digno de simpatia. Para além do tomismo, do aristotelismo, do cartesianismo, etc., está o homem tal como ele é, diante do mesmo mundo, diante dos mesmos fenômenos. A realidade é muito mais rica do que Aristóteles ou Leibniz. Deixar a paixão pelas etiquetas e ir às coisas mesmas.
* * *
Essa semana, fui abordado no metrô por um simpático senhor que quis saber o que eu estava lendo. Eu disse que era só um livro com um tema obscuro de direito romano e ele sorriu, comentando a respeito do assunto e dizendo paternalmente, ao final, que é muito importante que haja gente que estude esse tema, por essa e aquela razão. E ele estava claramente sendo sincero. Lógico que eu disse obrigado.
Então chegou a minha estação e eu me virei para a porta.
Deus, por um momento pensei que estivesse num filme do Tim Burton e que o Johnny Depp apareceria na cena seguinte, vestido de índio. Mas também pensei na possibilidade de fazer um novo amigo, por que não?
Olhei pra trás e o cara tinha sumido.
* * *
Basicamente, por que motivo insistir tanto na idéia de estar preso à realidade, repetindo o velho mote realista? O problema consiste em deixar de dar atenção a um mote porque ele soa velho e sem sentido.
As pessoas que pensam muito costumam viver duas vidas: uma vida real, em que se preocupam com os outros, ao menos quando se vêem coagidos a fazê-lo, em que querem ser felizes e acreditam numa objetividade do aqui e agora; e uma vida imanente, em que preferem prescindir dos fatos e ater-se a esquemas mentais porque são belos, ou porque são o resultado de anos de estudo.
A vida imanente é extremamente perigosa, e não só no campo moral. "As coisas não deveriam ser assim; isso é provavelmente alguma encruzilhada lacaniana que merece exame". Crê-se acima das responsabilidades, acima das exigências reais - com base na idéia de que tudo pode ser consertado depois, no campo mental. E então a procrastinação, a fuga, a angústia. Tudo procede do preferir os conceitos àquilo que a experiência nos oferece.
Isso não significa que devamos jogar fora os conceitos. Todos os erros básicos de princípio em filosofia consistem justamente nesse "então vamos abolir esse negócio de conceito", ou então "dane-se a realidade", posições aparentemente opostas, mas que partem da idéia de que, se algo deu errado com o nosso time, então é necessário apostar todas as fichas no time adversário.
Os conceitos exigem um teste permanente, uma atualização constante de acordo com os dados da experiência. Ir dos fatos aos princípios e dos princípios aos fatos; e transformar aquilo que poderia ser só um esquema mental em algo novo, operante e vital, sem medo de abandonar velhos preconceitos e de adquirir novos.
Por mais que tudo pareça ruir, algumas noções sempre permanecem: o princípio da não-contradição, a analogia do ser, diferenças fundamentais entre substância e acidente (por mais que se esperneie, uma seringueira é uma seringueira, e não uma acácia, e do mesmo modo uma seringueira pode ter 2 anos ou 100 anos de idade sem perder a sua identidade), entre forma e matéria, e assim por diante.
Não podemos abandonar uma verdade por ser ela antipática, e nem deixar de lutar por tornar simpático aos nossos olhos aquilo que, por ser real, é em si digno de simpatia. Para além do tomismo, do aristotelismo, do cartesianismo, etc., está o homem tal como ele é, diante do mesmo mundo, diante dos mesmos fenômenos. A realidade é muito mais rica do que Aristóteles ou Leibniz. Deixar a paixão pelas etiquetas e ir às coisas mesmas.
* * *
Essa semana, fui abordado no metrô por um simpático senhor que quis saber o que eu estava lendo. Eu disse que era só um livro com um tema obscuro de direito romano e ele sorriu, comentando a respeito do assunto e dizendo paternalmente, ao final, que é muito importante que haja gente que estude esse tema, por essa e aquela razão. E ele estava claramente sendo sincero. Lógico que eu disse obrigado.
Então chegou a minha estação e eu me virei para a porta.
Deus, por um momento pensei que estivesse num filme do Tim Burton e que o Johnny Depp apareceria na cena seguinte, vestido de índio. Mas também pensei na possibilidade de fazer um novo amigo, por que não?
Olhei pra trás e o cara tinha sumido.
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