Domingo, Julho 05, 2009

A Hund is er scho!

As conexões que a ciência nos obriga a fazer torna a "interdisciplinaridade" algo inescapável. Acabei por comprová-lo na minha própria pesquisa sobre um antigo instituto de direito romano. Fui obrigado a emprestar dados de muitas disciplinas: história, geografia, epigrafia, papirologia, filologia, linguística, arqueologia, agricultura, agrimensura, fotografia aérea, e vai saber o que mais. Antes, eu achava que interdisciplinaridade fosse conversa fiada, e nunca imaginaria que teria de usar o Google Earth numa pesquisa sobre a propriedade privada em Roma. Sem que eu pudesse perceber, as coisas aconteceram.

Isso me fez pensar na autonomia da realidade, que destrói preconceitos e noções ideológicas (e dizê-lo não faz de mim um professor da USP). A ciência é uma excelente oportunidade para o exercício do "curvar-se aos objetos" que estão lá fora, ou seja, cuja existência não depende de mim.

In this study, the potential and feasibility of the use of panchromatic and multispectral QuickBird data for the identification and spatial characterization of archaeological sites was evaluated. The analysis focused on an assessment of the capability of QuickBird images to detect surface anomalies expected in the presence of archaeological buried remains. The investigations were performed for a test case in the south of Italy, where human activity has been logged from the Palaeolithic to the Middle Ages. The results show that the QuickBird panchromatic and data fusion products can be a flexible data source for archaeological prospection, and can be useful for extracting features of archaeological sites prior to any excavation work and for increasing the cultural value of historical sites.

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Que diabos é anti-folk?

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Noel Gallager recentemente afirmou, entre outras coisas, que não suportava isso de shows com mensagem política, discursos carregados de mea culpa, etc, a exemplo dos do Coldplay e do U2. Apesar de ele falar merda grande parte do tempo, sou forçado a concordar. E o "seu ponto" é que as pessoas vão aos shows para ouvir música, to have a good time. "Não vou a um show para me sentir culpado", disse ele.

Curiosamente, essa é uma característica marcante desde os anos 90 (ou 60?). Deve haver um espaço público em que os artistas são gente engajada, o público se sente culpado e todos dão as mãos. Mas gente, eu quero ouvir música. Eu não sou um cara legal. Talvez eu me preocupe mais com o que acontece na minha casa do que com a África (o que não significa que a África não seja digna de atenção, ou o Brasil ou a Inglaterra). Talvez eu queira ouvir alguém que saiba tocar bem o piano, ou o que?

O problema é que as pessoas se preocupam demais com algo que não podem mudar e ignoram aquilo que podem fazer. Deixar de tentar ser um cara tão bacana e engajado seria um bom passo. Isso você pode mudar. Deixar a angústia social de lado e arranjar um emprego que se possa desempenhar com arte: é o modo normal de agir bem e dar a sua contribuição à "sociedade" (eu digo real people), mesmo que ela seja totalmente imperceptível (exemplo: analisar fotografias aéreas e fumar no intervalo).

Ontem estive numa pequena festa. Um sujeito que conheci, com o mesmo nome que eu, dizia que aprendera há pouco algo interessante: não é porque eu sou bonzinho que coisas boas acontecem. Shit happens to good people. Eu acrescentaria que, se ele reparasse bem, descobriria que ele não é tão bom assim e que, mesmo que o fosse, a merda aconteceria. Simples, não? Mas como custa reconhecer. Não se trata de uma constatação depressiva. Não somos soviéticos. Mesmo descobrindo que não somos tão legais, há vida no depois. E acrescento, vida melhor. Mas eu não disse nada. Eu e ele aprenderemos sozinhos. Papai não precisa ensinar, nicht wahr?

Isso diz muito sobre a literatura, como o MVC muito bem disse, carregando no sombrio: ela lida com o fracasso, e sabe resolvê-lo de modo esteticamente aprazível. A vida é muitas vezes literária, como diz o cliché. Converter a vida em literatura, a literatura em vida (corta essa, Leonard Cohen, de novo, que maldito cliché). Mas ok, é por aí.

A providência atua nos bares, nos cafés: o palco muitas vezes é montado para que não sejamos mais outros, não mais anônimos, não mais tão vagamente preocupados com a realidade. E lá estamos mudando o mundo. Não como os estudantes de 68, mas como as donas de casa, conversando com os chatos e servindo o cafezinho morno.

4 comentários:

christianrocha disse...

Dizem que anti-folk é isto: http://www.youtube.com/watch?v=SEOGWPA4e9w

Se é mesmo ou não, não sei. Só sei que é bom.

Richard disse...

Sobre a incompatibilidade de música e política, lembro de Stendhal, que considerava as referências políticas na literatura algo como um tiro de fuzil no meio de um concerto.

But oh well, não tem tiros de canhão no clímax da 1812 Overture?

Francisco Escorsim disse...

Lendo esse post me lembrei de que anos atrás o Pearl Jam fazia um show não sei onde. Quando o Eddie Vedder começou a falar mal do Bush - parece que até surrava o pedestal do microfone, no qual ele havia posto uma máscara do homem - as pessoas simplesmente começaram a ir embora. Acho que não ficou nem metade do público para assistir o restante do show.

Não é nada, mas serve de alento.

Fileleno disse...

Júlio, se você um dia acordar inspirado para isso, escreva um post sobre os sebos da Alemanha.

Se possível, com fotos. Coisa bem pornô mesmo.