Segunda-feira, Junho 01, 2009

Infinitary mathematics is a fantasy world in which we fantasize about the completions of processes which, realistically, we can only begin

Aquela expressão antiquada acender uma vela a São Miguel e outra ao diabo parece afirmar, não um dogma, mas uma máxima da experiência.

A opção por manter uma espécie de duplipensar moral, além do custo emocional, só pode ser sustentada por uma espécie de filosofia: o niilismo radical, que consegue aparentemente conciliar uma ausência total de fundamentos para o agir com as exigências da vida normal. Na prática, ninguém faria negócios com um niilista, ninguém gostaria de ser seu amigo, etc etc. O zeitgeist tornou-o, entretanto, alguém interessante. Na pior das hipóteses, o niilista nunca se assume como tal (estou falando de pessoas concretas, que existem e respiram, e não de categorias filosóficas).

Uma espécie de voluntarismo sustenta e conserva a opção niilista: apesar de todas as evidências em contrário extraídas da vida prática com pertubadora evidência, mantenho essa contradição e essa paradoxal tensão (the sort of tension that equals zero) simplesmente porque quero. Lembro-me de ter usado repetidas vezes esse argumento interior, porque fui eu mesmo um niilista radical com todas as letras. Experimenta-se então, sem dramas (como queira), o que nos papers sobre o tema costuma chamar-se "abismo ontológico", e é quase impossível sequer respirar intelectualmente. Pode-se empurrar com a barriga, mas a situação é tão absurda, que a atividade mais nobre e interessante passa a ser algo que defini como "contemplar paredes", algo que desemboca, se a pessoa tiver coragem o suficiente, numa estética do vazio. Essa situação foi suficientemente descrita na literatura contemporânea, com destaque para os romances de Don DeLillo.

Por uma espécie de instinto de sobrevivência, poucos têm coragem de levar o niilismo até as últimas consequências. Trata-se de uma incapacidade crônica de formular claramente a própria opção intelectual.

São muitos os obstáculos que se erguem diante de quem procura formular claramente a sua própria opção intelectual niilista. Um deles é o próprio espírito do tempo. O que era antes um passatempo exclusivo de pessoas inteligentes, teóricos da arte e filósofos tornou-se pelo menos desde os anos 80 uma alternativa para as massas. Não se exige do consumidor dotes intelectuais ou coragem. Basta assistir a um reality show ou a um comercial para se expor a doses cavalares de niilismo - como dizia há muito tempo Baudrillard, a publicidade veicula essa filosofia do nada através de imagens aprazíveis e aparentemente inofensivas, e praticamente não há como fugir dela.

Muitas vezes o simples ato de realizar essa formulação é a única saída para encontrar o sentido que falta. Lamento informar, para os que ainda não sacaram, que não basta recorrer a uma bibliografia anti-niilista, ou o que for. É preciso contato com pessoas que, de uma forma ou de outra, encontraram o caminho de volta - naturalmente não me refiro aos chatos "conversos" ou a proselitistas do otimismo - ou que nunca caíram nele.

Platão afirma em uma de suas cartas justamente isso: o que nos faz realmente cair do cavalo é o contato (aqui ele utiliza uma palavra grega intraduzível, algo que lembra vagamente "trato", "comércio" ou "intercâmbio") com pessoas interessantes, e não os livros. Eu diria que é a amizade; e se você não está pronto para acrescentar ao termo amizade conotações meramente sentimentais ou francamente equivocadas, poderá ter uma idéia do que quero dizer.

A imunidade à poluição semântica, assim como o gosto pela alimentação normal (v. g., carne, massas, queijo; café, vinho, cerveja), é nada mais do que sinal de saúde.

13 comentários:

Zé Luis disse...

Chás são uma boa também. Se bem que eles caem melhor no frio. Pena que é tão difícil marcar um chá das cinco nestas horas de desespero...

Marcos disse...

Opa, Julio, voltou ao blog com dois posts seguidos. Vi no seu twitter que vc estava passeando pela Baviera. Por coincidência, tinha acabado de assistir Ludwig, de Visconti, então, também vi um pouquinho destas paragens...e Wagner a falae com sua gentil canalhice...vc assistiu?

Adriano disse...

É difícil acreditar em amizade nesse mundo nosso. Além disso, muito do que você diz parece idealização de uma realidade que não existe e papo furado (confusão semântica correndo solta). Ao ponto de o grosso do texto não fazer sentido.

Julio disse...

Adriano: só os cínicos não acreditam em amizade "nesse mundo nosso", que é o mesmo mundo de sempre. Só posso lamentar o fato de alguém estar tão distante dessa realidade a ponto de pensar que se trata de uma idealização. (Esse problema vai muito fundo: o cinismo, atitude covarde e preguiçosa, faz de qualquer sinal de bondade uma confirmação de que todos os homens são interesseiros e egoístas, etc etc).

O fato de o texto não fazer sentido pode ser imputável à minha incompetência linguística. Mas também pode ser problema do leitor. A confusão semântica é quase sempre produzida pelo receptor. Pelo menos, essa é a tese que eu defendi implicitamente no texto.

Joel Pinheiro disse...

Belo texto, Júlio. De fato, a força do exemplo e os bens da convivência e da amizade são mais eficazes em realizar mudanças interiores do que tratados filosóficos, que muitas vezes vêm apenas para dar uma base mais sólida a um processo interno que já começou.

Bom, se bem que também tem gente (acho que bem menos em número) que muda só na base do tratado anti-niilismo mesmo.

E na falta de amigos que sejam bons exemplos, acredito que exemplos de vida admiráveis sobre os quais lemos ou assistimos são também um passo nessa mesma direção.

Julio disse...

Joel, de acordo! Minha enfase a respeito da amizade (naturalmente uma hiperbole) nao exclui, evidentemente, os livros. Eu mesmo nao posso reclamar do servico que eles costumam prestar...

Julio disse...

Marcos, devo ter assistido ao filme do Visconti, mas certamente nao e dos melhores. Na mesma linha, prefiro "O Leopardo". Ja viste? Recomendo.

Marcos disse...

Pois é, alugei os dois da mesma feita, mas vi primeiro Ludwig, que akiás ja tinha visto há vários anos. Qui ver de novo porque passei a gostar de Wagner e ele aparece como personagem. Mas sim, você tem toda razão: O Leopardo é muito melhor, gostei muito, personagem muito forte, diálogos interessantes e bo atuação de Burt Lancaster. Esse, vi na estante da locadora e peguei por causa do artigo da Dicta sobre o livro - que não li, mas fiquei com vontade de ler.

Julio disse...

Leia o livro, que é ainda melhor. Visconti, como marxista, não consegue transmitir uma imagem suficientemente realista da aristocracia (apesar de quase chegar lá: é um homem inteligente e ele mesmo tem um background aristocrático, o que lhe dá "conhecimento de causa"). Já Lampedusa não tem porque não conseguir...

Fileleno disse...

Eu já vi ou vivi exemplos concretos de tudo o que é dito no texto, e nada ali é fantasia ou idealização.

Por outro lado, os contatos cuja amizade é capaz de tirar alguém do poço niilista são poucos e estão ficando cada vez mais raros (pelo menos na minha experiência), de modo que não me surpreende que muita gente duvide de sua existência.

Uma experiência um pouco mais comum -- os contatos com amigos sérios e bem intencionados, mas igualmente desorientados -- até pode ajudar o sujeito a perceber com maior clareza o tamanho e a natureza do problema, mas não a resolvê-lo.

É o mesmo que livros podem fazer, aliás. E a esse propósito um dos que mais me ajudaram foi "Nihilism - The Root of the Revolution of the Modern Age", de Eugene (Pe. Serafim) Rose.

V. Oliveira disse...

Na literatura não seria Mersault quem teria levado o niilismo às últimas conseqüências. Mas me parece impossível ter existido um Mersault real. Alguém conheceu algum?

Julio disse...

Fileleno, so tenho a agradecer um comentario tao sensato. Obrigado pela dica do livro.

Adriano disse...

Sim, "nesse mundo nosso" que é o mesmo de sempre.

Sim, sou cínico. E é incrível como ao mesmo tempo sou preguiçosamente interessante e como covardemente considero vocês, crentes do lombo quente, medíocres.

E, sim, não sei ler. Você é simples e claro o tempo todo. Diria também que é pouquíssimo afetado.

And I dare you to publish this, you who are not a cynic, a lazy person or a coward!

Outra: é evidente que os homens não agem por interesse ou egoísmo. O mito da queda, em que eu sumamente acredito, é só um mito para você, não? (-: