Ter leitores sensatos é o sonho de qualquer escritor.
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Os leitores definem, em última instância, o que será de uma obra. Se ninguém tivesse compreendido Machado de Assis ou (o que dá no mesmo) ele tivesse sido esquecido, a sua obra possuiria, sim, um valor intrínseco potencial - mas o que é a literatura desconhecida senão, na prática, um fenômeno socialmente nulo?
Não haveria Cícero se os anônimos eruditos medievais e os Humanistas fossem idiotas: eles teriam feito a alegria das traças com os manuscritos e boa parte da cultura latina teria virado, literalmente, merda Lepismae saccharinae (cocô de traça).
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Muitas vezes se ouve dizer que alguém escreve para si. Isso está longe de ser um problema. Alguns deles farão parte dos "clássicos do futurível", seja por decisão pessoal, seja por acidente (Os Lusíadas quase se perderam, Kafka mandou expressamente queimar seus manuscritos mas foi felizmente desobedecido, etc.). (E eu diria que o espírito que move os que escrevem para si é muito mais nobre do que o dos que querem ser conhecidos a todo custo. Aliás, não seria essa despreocupação um atributo essencial do escritor?) Mas nós torcemos para que os bons autores sejam divulgados, trasformem e sejam transformados pelos seus leitores. Infelizmente, só vivemos em uma solitária dimensão do espaço-tempo.
E suspeito que ela não seja paralela a nenhuma outra.
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Por um lado, acreditar que as infinitas bifurcações temporais gerem infinitos universos paralelos é substancializar ilicitamente a imaginação matemática.
Isso se assemelha ao furado argumento antológico de S. Anselmo: pensar que Deus existe porque é a coisa mais perfeita que se pode imaginar e que, se for mesmo perfeita, deve ter o atributo da existência (!), é o mesmo que pensar que a escolha entre duas (na prática, infinitas) alternativas para uma ação - e aqui nos atemos apenas à dimensão da escolha livre humana - não é definitiva, e que a alternativa não escolhida teria vida própria e portanto habitaria um universo paralelo.
Às vezes tenho a impressão de que muita gente acredita, inconscientemente, viver num universo paralelo, mesmo que nunca tenha formulado expressamente, de si para si, esse problema.
A vida real, entretanto, não admite esse raciocínio. Na prática, só nos preocupamos com os resultados das nossas escolhas para essa vida que se desenvolve diante dos nossos olhos. Os outros eus-paralelos ("o que seria de mim se...") são, ou deveriam ser, ignorados.
Por outro lado, a imaginação certamente ajuda quando, inspirando-se num eu-paralelo, encontra energia para forjar, à sua imagem, um novo Eu, não passado, mas a partir de agora. É quando o futurível deixa de ser futurível.
Enquanto é absurdo contemplar "o que eu teria sido se", é algo muito fértil contemplar "o que eu serei se", desde que eu esteja disposto a colocar os meios pertinentes. À força de imaginar, forjamos um futuro real: podemos vir a habitar um "universo-que-seria-paralelo" escolhendo livremente a existência - dentro das limitações de costume (basta ter em conta que não somos deuses) - que queremos.
A nossa história pessoal mostra - espero que os leitores encontrem exemplos - que coisas absurdas, que mal podíamos acreditar, aconteceram. Talvez não sejam muitos os nossos exemplos. Penso, aliás, que poderiam ser mais numerosos. O que distingue um medíocre de um excelente (pensem em algo interessante, e não no José Wilker) é essa capacidade de imaginar coisas absurdas e torná-las reais.
Definitivamente, a vida dos time travellers é mais interessante.
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P. S. progaganda: A Dicta 3 já está em segundo lugar no ranking de vendas não-ficção na Cultura.
Segunda-feira, Junho 08, 2009
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8 comentários:
Talvez a melhor tática seja escrever para um leitor inteligente imaginário.
Quando surge a preocupação de escrever para um Fulano de Tal real, concreto e particular - a fim de agradá-lo, irritá-lo ou seja lá o que for - a coisa degringola. Fulanizar a literatura ou o debate em geral é sempre uma mesquinharia.
Por outro lado, é preciso ter a esperança de que um dia o leitor inteligente imaginário vai se materializar em algum Fulano de Tal real e concreto. Ou isso, ou o esquecimento - não por culpa do escritor, certamente.
Como nem sempre o bom Fulano de Tal foi dado à luz, uma parte nada desprezível da literatura grega e latina de fato virou cocô de traça. Resta-nos manter a presunção consoladora de que aquilo que sobreviveu tenha sido, grosso modo, o melhor - mas todos sabemos que essa presunção, embora não de todo infundada, é apenas parcialmente verdadeira.
Escritores podem tentar escrever para antigos autores, imaginar o que tal autor ia pensar deste trecho, ou de um determinado diálogo, da cadência da frase, do personagem, enfim. Estranho, mas este sentimento não paralisa, apesar de que os antigos e grandes autores, creio, tenderiam a menosprezar o que foi feito pensando neles. Baudelaire pagou o soldo a Delacroix, o mesmo que veio a desprezá-lo depois.
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El Jardín de los Senderos que se Bifurcan e o capítulo IV da primeira parte, seção 2, 6º§ do Introdução ao Cristianismo do então cardeal Ratzinger.
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Et tout le reste est littérature.
E, ah, perdemos toda a pintura grega. O que sabemos vem dos Plínios e de mais alguns comentários deslumbrados. A imaginar pelo vulto de Pompéia...
Você falou de leitor sensato, mas vou dar uma de leitor chato: você escreveu "argumento antológico de Sto. Anselmo". Não seria argumento ontológico? Ou foi uma sutil e voluntária ironia (antológico, de anta)?
Haha, Vinicius. Trata-se evidentemente do argumento ontologico, mas disse antologico por constar em todas as antologias... Piada besta.
Queres leitores sensatos, mas aqui vem mais um chato a corrigir-te. O argumento ontológico diz justamente o contrário do que pensas. Deus existe pq é a coisa mais perfeita (o que é concedido como idéia até pelos ateus)que NÃO podemos pensar (ou imaginá-lo, como dizes). A imperfeição do sujeito cognoscente não lhe permite pensar totaliter o objeto, que, no entanto, não é completamente ignorado, pois conhecemos que o desconhecemos. O próprio Santo Tomás não considerou o argumento corretamente, que se funda naquilo que o nosso MFS chamou de nexo real das idéias. Na sua refutação, Santo Tomás diz que não se pode saltar da ordem ideal para a real, mas Santo Anselmo se equilibra entre as duas. O que ele diz é o que vives a repetir aqui, isto é, que o pensamento não abarca totalmente a realidade. Logo, só o insensato nega aquilo que ele não pode pensar totalmente.
Abraço.
Magno
PS: De volta da viagem?
Aberlardinho Lemos, rindo de Sant'Anselmo...
Eu já acho que essa questão foi resolvida por Santo Agostinho. Ele escolheu escrever para o melhor do leitores.
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