Esse blog, se contamos as mudanças de nome, já tem quase 7 anos, mais ou menos a idade da minha irmã, que faz aniversário nesses dias. Nem tudo é instável. Os acidentes mudam, a essência permanece.
* * *
Basicamente, por que motivo insistir tanto na idéia de estar preso à realidade, repetindo o velho mote realista? O problema consiste em deixar de dar atenção a um mote porque ele soa velho e sem sentido.
As pessoas que pensam muito costumam viver duas vidas: uma vida real, em que se preocupam com os outros, ao menos quando se vêem coagidos a fazê-lo, em que querem ser felizes e acreditam numa objetividade do aqui e agora; e uma vida imanente, em que preferem prescindir dos fatos e ater-se a esquemas mentais porque são belos, ou porque são o resultado de anos de estudo.
A vida imanente é extremamente perigosa, e não só no campo moral. "As coisas não deveriam ser assim; isso é provavelmente alguma encruzilhada lacaniana que merece exame". Crê-se acima das responsabilidades, acima das exigências reais - com base na idéia de que tudo pode ser consertado depois, no campo mental. E então a procrastinação, a fuga, a angústia. Tudo procede do preferir os conceitos àquilo que a experiência nos oferece.
Isso não significa que devamos jogar fora os conceitos. Todos os erros básicos de princípio em filosofia consistem justamente nesse "então vamos abolir esse negócio de conceito", ou então "dane-se a realidade", posições aparentemente opostas, mas que partem da idéia de que, se algo deu errado com o nosso time, então é necessário apostar todas as fichas no time adversário.
Os conceitos exigem um teste permanente, uma atualização constante de acordo com os dados da experiência. Ir dos fatos aos princípios e dos princípios aos fatos; e transformar aquilo que poderia ser só um esquema mental em algo novo, operante e vital, sem medo de abandonar velhos preconceitos e de adquirir novos.
Por mais que tudo pareça ruir, algumas noções sempre permanecem: o princípio da não-contradição, a analogia do ser, diferenças fundamentais entre substância e acidente (por mais que se esperneie, uma seringueira é uma seringueira, e não uma acácia, e do mesmo modo uma seringueira pode ter 2 anos ou 100 anos de idade sem perder a sua identidade), entre forma e matéria, e assim por diante.
Não podemos abandonar uma verdade por ser ela antipática, e nem deixar de lutar por tornar simpático aos nossos olhos aquilo que, por ser real, é em si digno de simpatia. Para além do tomismo, do aristotelismo, do cartesianismo, etc., está o homem tal como ele é, diante do mesmo mundo, diante dos mesmos fenômenos. A realidade é muito mais rica do que Aristóteles ou Leibniz. Deixar a paixão pelas etiquetas e ir às coisas mesmas.
* * *
Essa semana, fui abordado no metrô por um simpático senhor que quis saber o que eu estava lendo. Eu disse que era só um livro com um tema obscuro de direito romano e ele sorriu, comentando a respeito do assunto e dizendo paternalmente, ao final, que é muito importante que haja gente que estude esse tema, por essa e aquela razão. E ele estava claramente sendo sincero. Lógico que eu disse obrigado.
Então chegou a minha estação e eu me virei para a porta.
Deus, por um momento pensei que estivesse num filme do Tim Burton e que o Johnny Depp apareceria na cena seguinte, vestido de índio. Mas também pensei na possibilidade de fazer um novo amigo, por que não?
Olhei pra trás e o cara tinha sumido.
Sexta-feira, Maio 01, 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

4 comentários:
Morro de curiosidade para saber como seria a "vida real" de gente como Luhman, Habemmas e "Gargamer".
CARACA, será que era o seu anjo da guarda ?
Mas, qual é o tema obscuro de direito romano? (Oi, como vai? Ótimo blog).
O episódio do metrô fez lembrar aquele ocorrido na Av. Paulista, uns 10 anos atrás, onde um distinto senhor fez algumas observações muito sinceras, sobre os livros que comprávamos. Só que neste caso, fomos nós que desaparecemos...
Postar um comentário