Domingo, Maio 03, 2009

Como tornar-se um cara from hell

Tenho um velho hábito: de tanto cantar uma música internamente, acabo alterando a letra, e depois, muito tempo depois, escuto a música original e acho estranho, resmungando que o filho da puta alterou a letra.

Oh vida imanente.

* * *

Não quero canonizar o bom senso, mas o fato é que é estranho ouvir gente reclamando que, "enquanto tanta gente passa mal", alguém possa se preocupar mais com a saúde e o bem-estar da família e dos amigos.

Nós somos nossos círculos, por mais amplos que sejam. Não nossos grupelhos, por Júpiter Quirino, como explico abaixo. O "acaso" cria a nossa teia de relações, e é essa teia de relações a mais importante - ela gera os nossos deveres diante dos outros. A ela se restringe a nossa preocupação.

Paradoxo: esse círculo deve ser infinitamente aberto, pronto para transformar estranhos em amigos ou, pelo menos, em colegas ou em gente digna de receber a nossa estima e cuidado. Sem essa abertura, somos atores de novela ou membros de seitas, o que constituiria uma tragédia sem par. Nesse sentido o santo, em moldes não caricaturais, é o exato oposto do sectário, pois o que o define é justamente essa abertura incondicional. E no entanto são os santos os primeiros a ser guilhotinados (confira os últimos capítulos da novela de Thomas More).

Pensar assim é - não por essa razão - uma condição para viver em paz, sem angústias franco-revolucionárias.

A isso contraponho o amor à Humanidade, de que ninguém é capaz em sentido estrito.

Muitas seitas são, a propósito, a personificação desse amor abstrato que viola a humanidade em favor da Humanidade.

Preferir sistematicamente "membros do nosso grupo" aos outros, por princípio, é um grave erro de nuance diante princípio que esbocei acima. Essa atitude implica preferir (não digo afetivamente, mas 'sectariamente') abertamente certas pessoas porque aceitaram fazer parte do meu grupo, o que é lançar um elemento estranho de voluntariedade numa esfera que é, por definição, aberta à Providência (ao acaso, para os ateus) e à gratuidade.

Por isso a formação de grupos, quando inevitável, deve sempre obedecer a esse princípio pessoal, e não organizacional, de abertura ao Outro. Fazer parte de uma seita é desconectar-se dos círculos naturais e fechar a minha teia de relações, transformando-a em algo impessoal.

Os exemplos são abundantes. A crítica ao comunismo e ao politicamente correto pode converter-se em um grupo ideológico que descarta pessoas que se enquadram, como falantes explícitos ou implícitos a favor daquelas ideologias, nessa crítica. E ela se converte então em alguma espécie de ódio, não em um ódio caricatural que só existe nos livros, mas numa antipatia que restringe aquele círculo natural apenas aos que, por algum motivo, fazem parte do grupo (os amigos, em oposição aos inimigos, semelhantemente à política de Carl Schmidt). Já vi gente odiando até a mãe porque ela seria "esquerdista". É muito fácil passar de uma atitude crítica, que pode e deve ser sensata, a um sentimento de repulsa por pessoas concretas. Mas o ser fácil nunca é desculpa. Muitas vezes até esse sentimento de repulsa estaria entre os principais objetos da crítica, mas na prática o grupo "anti-ideológico" o assume com gosto, fechando os olhos para os seus erros. E então o "objeto criticado" se identifica com o crítico: eles passam a ser um só, entram no mesmo saco, embora se odeiem mutuamente.

Quantos exemplos dessa crítica espelhada.

* * *

E não é à toa que o individualismo moderno tenha gerado sectarismos sem fim. As pessoas se sentem como indivíduos, mas nem pedem licença para fundar a sua panela e viver nela como se fosse um microcosmo perfeito.

Não há diferenças essenciais entre o individualismo e o coletivismo. Por isso os seres mais iguais e sem personalidade que conheci eram, não consumidores-padrão, mas gente do mundo underground, "alheios às convenções do grupo dominante", id est, infinitamente convencionais.

E não basta a consciência de que o anti-convencionalismo é mais um convencionalismo. Isso é ridículo e só um adolescente poderia dizê-lo, com seus 15 ou com seus 40 anos de inexperiência. A personalidade radicalmente própria não se constrói com mais "consciência", mas com uma luta concreta por encarnar valores autênticos (posse de si, firmeza, prudência, justiça, mesmo que se use piercings e se tenha tatuagens de caracteres chineses, coisa que passou de moda há séculos).

É fácil ler muitos livros e se tornar consciente das limitações do mundo underground, que prega um anticonvencionalismo ultraconservador. O difícil é sorrir quando as coisas vão mal, tomar decisões, jogar a cocaína fora, ter filhos, falar palavrões sem achar que se está abafando. A heterogeneidade dos exemplos falam, isso vai sem dizer, de um universo novo.

As ovelhas se distinguem pelo seu horror à sua condição de ovelhas, mas principalmente pelo fato de que não mexem nem um mindinho para sair dessa situação de servilismo.

Em resumo, parece-me que o saudoso Jim Morrison foi uma ovelha. Lamentamos a ovelha, mas que os mortos enterrem os seus mortos. Isso não me faz odiá-lo.

E nem odiar o black metal polonês de vanguarda-roupa (que sim, existe).

5 comentários:

Olivia disse...

yes it is.

capoft.

Julio disse...

Hi there, Olivia sem acento. Twitterdgênia, I say.

R. C. disse...

Julio, essa sua consideração sobre o individualismo moderno é quite insightful. E para provar que estamos na mesma frequência, faço esses paralelos:

Há umas semanas atrás eu troquei uns e-mails com um rapaz francês (autor desse interessante blog), e ele me disse que às vezes tem a impressão de que está cercado de cretinos balindo: "Não sou ovelha!"

E é verdade. Não existe um "instinto de rebanho" menos reconhecido que o individualismo moderno. A mentalidade moderna nesse sentido é uma forma de hipocrisia muito bem disfarçada.

Como todo adolescente imbecil e revoltado, eu li Nietzsche demais por um tempo e me deixei influenciar pelo bigodudo, mas graças a Deus nunca me tornei ateu militante como aquelas criaturas no ateus.net, e antes dos vinte anos já tinha abdicado ao ateísmo. Mas o cara que passa dos vinte anos e ainda está fazendo as mesmas coisas, lendo os mesmos livros, pensando da mesma maneira... esse sim é uma cabeça de gado, e não tem alma.

Outra perspectiva que se encaixa bem aqui é o que ASS escreveu no primeiro volume de seu Paradiso: não existe uniformidade no bem, não no verdadeiro bem, o que seria dizer que o mal, ou a vulgaridade, é sempre uniforme. E pode-se dizer que existe até uma Gleichschaltung na vulgaridade.

Abraço.

C r is disse...

acho que a grande questão é: temporalidade, deixar que as marcas de cada tempo aconteçam, deixar que a história se escreva sem forçar... bom, gostei do blog.

Fábio disse...

Muito bom.

Isso lembra Tocqueville: é certo que, nos séculos aristocráticos, a noção geral do semelhante é obscura e que quase não se pensa em se devotar à causa da humanidade, mas se sacrifica muitas vezes a certos homens. Nos séculos democráticos, pelo contrário, os deveres de cada indivíduo para com a espécie são muito mais claros, mas o devotamento a um homem se torna mais raro.