Domingo, Abril 19, 2009

So lost in the sacred majesty

O objetivo mais humano - a saber, viver ancorado numa profunda alegria em meio à dureza inescapável da vida - não se atinge humanamente. Alguns diriam que é uma pena, mas até aqui se manifesta paradoxalmente a dureza da vida. Como comunicar o segredo dessa alegria? Por definição, trata-se de um fato imediatamente incomunicável. Por isso a frustração de quem tenta compartilhar esse segredo - nesse momento esquecendo-se de que, novamente, será necessário ancorar-se ainda mais nesse gaudium a fim de confortar-se diante da sua própria inexcrutabilidade.

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A alegria nos pede que a compartilhemos. E mais uma vez sofremos com a sua incomunicabilidade imediata, embora não impossível a longo prazo. Quem quer comunicá-la, conhecendo a limitação da sua comunicabilidade, precisará de algo que só o seu interlocutor pode dar: a sua liberdade. O acesso à alegria passa pelo bom uso da liberdade, algo difícil de se atingir. Se podemos compartilhar conhecimentos com certa facilidade, não podemos compartilhar a livre adesão a algo que pressupõe uma grande responsabilidade.

Eis algo que o próprio Deus não pode tocar, ou melhor, não quer, de modo algum, tocar. A tua liberdade, o teu aqui e agora diante das escolhas (ou ainda, a tua escolha diante do hic et nunc). Os bens mais excelentes escondem-se, esquivam-se dos orgulhosos e dos que não querem gastar a sua vida. Mas essa é a realidade, essa a constituição da persona.

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A eternidade é a posse simultânea e perfeita de todos os instantes e de toda essa alegria, a *interminabilis vitae tota simul et perfecta possesio* de Boécio: sendo a vida enraizada no tempo, isso exige paciência, e o tipo mais duro de paciência, que deve se dispor a enfrentar a inexcrutabilidade do futuro (pode ser uma paciência para hoje ou para daqui 50 anos, nunca se sabe - e aqui entra a afirmação de Aristóteles de que só é possível conhecer a felicidade de um homem após a sua morte). Paciência = fidelidade.

A dança é a arte da paciência. (E assim devo estar a copiar algum teórico do ballet).

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Isso me lembra a história de um ex-agente da KGB, que com toda a sinceridade, admitia a sua maldade ao se deixar recrutar pela organização. Todos os que reclamam que foram recrutados esquecem que, apesar de tudo o que possa pesar em seu favor (que sim, devemos levar em conta e suspender o julgamento pessoal), deram o seu assentimento quando podiam não tê-lo dado. Ninguém se torna um assassino por exigência do meio.

E assim ninguém alcança a felicidade em virtude de um determinismo. Se somos recrutados por uma falsa alegria, "a joy that glows at Nature's bourn" (Shelley), a responsabilidade é só nossa.

É para esquecer a idéia de que liberdade rima com facilidade que alguns homens cessaram de a procurar e a encontraram, no meio das maiores dificuldades. Isso significa gastar a vida, não querer segurá-la, mão sucumbir a uma filosofia fácil e irresponsável que tem como mote o "livre exame da constituição do mundo e do homem", ou seja, uma fuga da realidade do sofrimento.

Os passos mais difíceis da filosofia são pouco teóricos: implicam uma escolha livre que, sinceramente, dói, complica a vida. Reconhecer os erros pessoais - reconhecer que fomos recrutados livremente pela falsidade - é das coisas mais dolorosas que há, mas também das mais saudáveis.

1 comentários:

Zé Luis disse...

Inside, only pain is real.