Terça-feira, Março 03, 2009

Ja, mei!

O Feliz Nova Dieta tornou-se agora internacional (oh, grande coisa). Numa nova casa em Munique, muito mais modesta que a de Thomas Mann - que fica logo ali na esquina -, mas muito agradável. Aqui morou, mais estranho ainda, o diretor de "A Vida dos Outros", Florian H. von Donnersmarck, evidentemente antes do Oscar...

Não ficarei nem um ano, pois morrerei de saudades do Brasil (aham).

Uma boa descoberta, andando por aí, é que há ainda pessoas que fumam, mesmo com toda essa neura alemã de querer "estar no século XXI", seja lá o que isso signifique. Já tratei de esconder o meu hábito, para passar por cidadão comum. Estou tentando incorporar, no meu alemão terrível, grunhidos locais como Uiuiui - Ja, mei! - Na guck mal!, mas ainda sem sucesso.

Mas não foi isso o que me trouxe para cá, e sim a Universidade LMU, que tem mais livros do que São Paulo inteiro, e pessoas estranhas, e mapas detalhados pelas paredes (incluindo até o mapa do banheiro de serviço).

Ah, e você pode deixar o seu Porsche na frente da casa durante toda a noite com a chave no contato, como o meu vizinho. Nada acontece.

Pensei hoje em uma equação estranha. No Brasil, as pessoas confiam 10% uns nos outros, a ponto de sempre deixarem trancados os seus carros e casas, e a polícia é 10% efetiva. Na Alemanha, as pessoas confiam, vá lá, 95% nas outras (evidentemente, do ponto de vista apenas da segurança de suas propriedades), a ponto de deixarem abertos seus carros e casas, e a polícia é, vá lá, 90% efetiva, medonhamente efetiva. Que diabos explica isso?

O medo da polícia não exerce tanta influência. Por exemplo: a operação de compra de bilhetes de ônibus é deixada totalmente ao alvedrio do cliente. Veja que é obrigatório, mas não há fiscalização. Se não quiser pagar - não há catracas -, isso será uma falta contra os deveres cívicos (e de direito público), mas ninguém vai saber. Mas mesmo assim todos pagam. Uma vez eu esqueci de pagar e, na volta, por puro dever cívico (na verdade, só por respeito àquela virtude chata, a justiça, e não por medo do purgatório), comprei dois bilhetes.

O imposto é imposto porque é imposto, dizia alguém.

***

São condições mínimas de pesquisa - silêncio e bibliografia. Silêncio monumental, ça va sans dire. E não é possível fazer uma pesquisa sem ter à mão todos os livros e artigos necessários, e isso na hora em que precisamos deles. Essa hora vem a qualquer momento, e costuma ser inesperada. Cada afirmação, mesmo acidental, também em ciências humanas, deve ser comprovada com citações. Se eu não tenho o livro, não posso fazer nada. Simples.

E cadê o meu senso de humor?

4 comentários:

Vinícius de Oliveira disse...

Leio agora a "A Sagração da Primavera" de Modris Eksteins. O que diria você sobre a diferênça do zeigeist alemão às portas da Primeira Guera Mundia e nos dias de hoje?

Ricardo Leal disse...

Caro Lemos,
1) parabéns sinceros pela universidade e por Munique. Não conheço, mas dá para sustentar firmemente as congratulações, hm, monásticas. 2) Percebo seu blog como não mais que semi-público. Antes assim, mas arrisco perguntar qual o horizonte da sua pesquisa. Se o foco já estiver claro, mais bacana ainda.

Julio disse...

Valeu, Ricardo. A universidade é muito boa, há uma longa tradição na minha área de estudo - o instituto em que estou foi fundado por Leopold Wenger, talvez um dos 5 maiores romanistas do século XX. O horizonte da minha pesquisa... É algo bem específico: a ligação entre um preceito das XII tábuas sobre usucapião e a tradição romana da ars grommatica, ou seja, dos agrimensores. Não espalhe, porque por milagre encontrei algo dentro do meu tema sobre o qual nunca se tinha escrito...

Julio disse...

O Zeitgeist atual é o globalismo. Os jovens daqui são iguais aos paulistanos, só um pouco mais sérios e estudiosos, e mais bebedores. A roupa é a mesma. É tudo um pouco mais chique e confortável, embora imensamente politicamente correto.