Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Terere as a way of life - lo and behold!

O que é mais perigoso em qualquer tipo de tradicionalismo é o acomodamento. 

Um sinal lateral disso é o próprio uso da palavra 'tradição': em épocas históricas em que as pessoas naturalmente valorizam a entrega dos valores e 'modos de estar-no-mundo' às próximas gerações (a idéia é de um filósofo basco), ninguém menciona a 'tradição' e nem funda movimentos tradicionalistas. É algo natural. A tradição é apenas uma das características da civilização, e por isso não deve ser defendida como um valor desencarnado, esteticamente aprazível.

Por isso, parte do tradicionalismo é movido exclusivamente pela vaidade. As pessoas se sentem como que revolucionárias, partidárias de um novo modo de vida, e aquela coisa toda. O mero tradicionalismo religioso é uma forma decadente, exterior, de relação com Deus. Aqui, é mais 'católico' quem mais fala da Tradição, quem mais tem cara de reacionário, quem parece mais piedoso, andando por aí com terços à mão e com cara de beato, pissing around holy water. É decadência pura. A solidez não tem lugar num esquema estético desse tipo. Nesse sentido, os vitorianos eram grandes tradicionalistas, fariseus que usavam casacas e fumavam cachimbo e ficavam escandalizados.

Qualquer tradição só se afirma quando é implícita em um discurso e está ligada a um comportamento autêntico, não estereotipado e não nostálgico, aberto ao mundo, ao diálogo, ao intercâmbio, como ocorre com as boas tradições (culinárias, esportivas, tecnológicas, científicas, filosóficas, etc).

O perigo do acomodamento está mais diretamente ligado à idéia de que basta aderir a uma tradição e tudo está resolvido. Que nada. Se se trata, por exemplo, da ética das virtudes, aderir a ela é apenas um começo, que não garante absolutamente nada. O cristianismo, da mesma forma, abomina o acomodamento, a passividade, o pessimismo "nós versus o mundo corrompido", a 'humildade' do camponês que fica na sua terrinha e não alimenta nenhuma ambição. As tradições autênticas são modos de estar-no-mundo inseparáveis do heroísmo, inimigos da mediocridade.

O tradicionalismo faz capelinhas, grupinhos, panelas. Transforma pessoas naturalmente modestas em pedantes que não querem falar com ninguém que esteja 'de fora', a não ser que seja para convertê-los (em que? em tomadores de tereré?).

Bem, mas isso não é novidade, esse to be, and not just appear to be. Leiam Chesterton e deixem esse escândalo de lado.

* * *

Para algo completamente diferente, eu digo que existem múmias.

17 comentários:

Jorge disse...

Esse post seria lindo num outro mundo.

Julio disse...

E já neste prosaico mundo o seu comentário não deixa de ser enigmático (risos).

Zé Luis disse...

Pois é, compreendo. Estava eu a falar outro dia com minha mãe sobre meus professores e ela me saiu com essa: "não é gente que queira mudar o mundo..." e eu disse indignado: "mas eu não quero mudar o mundo!" e até aí, beleza, o problema foi que emendei que queria conservar algumas coisas que podem se perder... Mas, oh raios, o que é que pode se perder mesmo? E sim, há uma diferença entre se preocupar e agir, quanto mais em ser a tal diferença...

Julio disse...

Não sei se quero mudar o mundo - em certo aspecto, sim. É até uma boa matéria para o post. Mudar o mundo no sentido de formar umas poucas pessoas - a reação é em cadeia - não é má idéia, muito pelo contrário. Os cristãos mudaram o mundo romano, e para melhor (grande parte da boa raiz do que hoje se chamam os 'direitos humanos' é uma vitória sobre o paganismo e sua rudeza, seu olhar cruel e estreito sobre o mundo); se essa afirmação é verdadeira, então "mudar o mundo", do ponto de vista católico (embora não seja o meu papel nesse blog remeter o tempo todo a essa perspectiva, expressamente), é perfeitamente desejável. E os conservadores que se explodam (risos).

Gustavo Nagel disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Jorge disse...

A coisa não é tão simples, a coisa não é tão simples.

Eu concordo com quase todos esses seus "kick in the eye", mas neste post parece que a crítica é contra gente que se mantém fiel a algo que, é inegável, no mínimo é matéria de disputa.

E se, depois de tudo, eles forem os cristãos nas catacumbas?

"Direitos Humanos" muitas vezes soam como coisa bastante pagã.

Julio disse...

"Parece que a crítica é movida contra..." Na verdade, não é movida contra ninguém, e sim a visões de mundo que elevam critérios não essenciais (acidentais) ao status de "matéria inquestionável".

Cristãos que se julgam "talvez" os próprios cristãos nas catacumbas, contra a autoridade legítima ou ao menos com certa desconfiança, são justamente os protestantes. Os tradicional*istas* autênticos têm, com relação à autoridade - por exemplo, uma desconfiança anti-católica contra Paulo VI, João Paulo II e até Bento XVI -, uma atitude muito semelhante à protestante, e que na prática dá quase no mesmo.

A bandeira dos direitos humanos é quase sempre uma bandeira autodenominada "pós-cristã" - portanto nunca plenamente cristã -, mas que os pagãos nunca compreenderiam. Há algo de bom e algo de mau, mas certamente a sua inspiração é anti-pagã. Há uma tendência estóica, mas que se define justamente por tentar superar o cristianismo, e que portanto não existe sem ele.

Vinícius de Oliveira disse...

Incomoda também o conformismo liberal-conservador em relação à questão social. Tudo já foi dito contra o socialismo revolucionário e o socialismo estatal, mas ter como princípio que o Estado deva se abster de agir, não implica que os indivíduos também o devam. Nem todo socialista é de fato uma besta sedenta de poder. Há também os nobres e heróicos com verdadeiro anelo de elevação dos miseráveis material, intelectual e culturalmente. Só que acabam cooptados pelas bestas sedentas de poder. Só que é preciso informá-los de que o verdadeiro heroísmo não é se mudar para a Venezuela para fazer propaganda eleitoral para Hugo Chaves, mas talvez para o Sudão onde há de fato miséria, massacre, opressão.

L. G. Dias disse...

Seu blogue foi premiado com o selo Blog de Ouro!
http://resumoteorico.blogspot.com/2009/02/e-nozes.html

Anônimo disse...

fala julio,
na comu do olavo de carvalho no orkut estão debatendo este seu artigo: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=44668&tid=5304468894727822123
um deles lá levantou a bola de que a causa deste tradicionalismo que vc critica seria um excesso de "vivência exotérica" (e não esotérica) da fé cristã
o que vc acha?

Jorge disse...

"Cristãos que se julgam 'talvez' os próprios cristãos nas catacumbas, contra a autoridade legítima ou ao menos com certa desconfiança, são justamente os protestantes".

Isso já aconteceu outrora com os marginais sendo os atuais triunfantes.

E quem disse que alguém implica com questões acidentais? Estamos falando de dogmas -- essência -- e da Missa (...)

Não sou um especialista, mas repito, A COISA NÃO É TÃO SIMPLES.

Anônimo disse...

Aqui vai a opinião de um ignorante:
ONGs existem para suplantar o cristianismo. É a caridade nos moldes do bom pagão.

Gustavo Nagel disse...

Outro grande risco que o tradicionalista corre é o de tomar os erros dos antigos -- ou suas «verdades incompletas», no dizer de von Hildebrand -- como as maiores das virtudes.

Tulio disse...

Também não sou um grande conhecedor, mas existe uma diferença bem grande entre tradicionalismo e nostalgia.

Rafael Oliveira disse...

Julio, tomei a liberdade de publicar seu artigo no sitio http://acarajeconservador.blogspot.com/

Jorge disse...

Falar desse assunto é cair nisto que, acredito eu, vc nunca quis que seu blog caísse.

Entra um monte de gente com o sapato sujo de lama, uns nem têm idade pra entrar na sala... a sala com um cheiro estranho, a governanta horrorizada.

Rodrigo disse...

Isso aí, Julio! Tô contigo e não abro...Parece que há ressonâncias de Carpeaux em seu texto, tô certo?