Se a vida é movida a paradoxos? Antes, os paradoxos são a única forma de expressar, pela linguagem oral ou escrita, certos aspectos da realidade. Se não há paradoxo, não há fidelidade.
Se digo que a grande meta, no terreno do comportamento, é trazer para si a responsabilidade e, ao mesmo tempo, estar totalmente à vontade, estou dizendo que a alegria genuína é uma espécie de paz na guerra. E o ideal para os pais: firmeza e amabilidade, tudo ao mesmo tempo. É certamente como descreverá alguém que tenha sensibilidade a experiência de um filho diante de um pai e uma mãe na medida certa.
Teorias educacionais e explicações sintéticas da realidade - e talvez toda a procura por uma teoria - nutrem quase sempre um ódio ao paradoxo; ele rouba à teoria a sua capacidade de abarcar a realidade, sempre rebelde às certezas e ao quadriculamento.
Não há nada pior do que um médico 'convicto', que está sempre com a sensação de acertar em tudo; quando se trata de um psicanalista, a tragédia é ainda maior (vejo sempre freudianos cheio de certezas). O médico inteligente é aquele que desconfia sistematicamente da sua habilidade, embora não tenha medo de decidir. Eh, mais um paradoxo.
* * *
Nós esquecemos de tudo. Dizia o Nicolás que o pecado é sempre um esquecimento: uma desordem nas prioridades, na ordo amoris. E vamos seguir errando, nos dois sentidos do termo, enquanto não nos lembrarmos de que importa não esquecer, numquam obliviscere fidem tuam.
Por isso o sucesso de tudo o que 'esquece'. Uma palavra repetida: "Esqueci", que vende muito bem. A memória anda em baixa porque a fidelidade anda em baixa. É um enraizamento tedioso no imediato-sem-memória. O imediato é, sim, o único; mas ele vive de contágios com as resoluções, os valores, as retificações. Sem esse contágio, o presente é uma fixação no nada.
O sucesso dos adágios é sinal de saúde mental coletiva.
Cole no seu carro: quid hoc ad aeternitatem?, que diabos essa joça importa diante da eternidade?, e cause muitos abalroamentos de automóveis, engavetamentos, sinistros incalculáveis, enfim, muito trabalho para a polícia.
Sábado, Janeiro 17, 2009
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1 comentários:
Il Barone Mutante
Um paradoxo comum é que entendamos os comentários uns dos outros. Será a compreensão um paradoxo?
Mas há esquecimentos e esquecimentos. "Lo olvido", como dizem os espanhóis, me parece ter um peso diferente (talvez porque esteja em espanhol) do habitual e prosaico "esqueci". Nas traduções dos poemas de J. L. Borges os tradutores optam pelo olvido vernáculo, que não é nada mais do que um arcaísmo esquecido, com o perdão do trocadilho.
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