Entrei para o clube dos blogs em 2002, com o Capitalismo. Pouco depois, acho que em 2003, fundei o velho Comentário ultramontano, com arroubos triunfalistas e tudo o mais que nos autos consta. Só em 2006 fui criar esse Feliz Nova Dieta.
Isso é uma placa comemorativa de coisas inúteis, e talvez nem tanto.
Em 1989, comecei a construir bestas usando borracha de injetar soro, pregos e um arco de goiabeira. Agora, por pouco mais de 100 mangos, você compra uma besta amadora em qualquer loja de esportes.
Em 1999, derrubei um copo de uísque num bar. Em 1998, eu e uns amigos estourávamos para nós mesmos em uma banda de hardcore chamada Insight 13, da qual não temos gravada nenhuma música e da qual não se conservam as letras.
Em 1979, surpreendi-me, com um ano de idade, fugindo das tias dos futuros anos 80 cheias de creme no rosto.
Em 2009, trinta anos depois, cá estou escrevendo asneiras.
Em 1969, minha mãe era uma criança (era mesmo). Em 1959, ela nem tinha nascido.
Em 2007, com a visita de Bento 16, entrei para o mundo de Marlboro, pois ninguém é de ferro, com 1 exceção (estilo Kurt Vonnegut)
Em 10 de outubro de 1999, dois dias antes do dia da criança, percebi que não era, nem de longe, a pessoa mais inteligente que eu tinha encontrado. Hoje, raramente me esqueço de que não estou nem no top 100 dos mais inteligentes da minha casa. Cé burro de nascença?, dizem no Ceará.
A virada de ano é motivo de balanço ou não é uma virada de ano. Esqueçam os preconceitos iluministas: o fato de que um ano termina tem um significado psicológico importante: é um recomeço mesmo, se você não for um texugo gripado. Daqui poderei ver os fogos da Paulista de camarote. Quem sabe uma champanhe prendada. Muita alegria, apesar da dor pelas burradas de 2008; é legal cumprimentar as pessoas num terraço que dá para a Paulista.
Única coisa é ser fiel, macacada. High fidelity: uma expressão que me lembra mais pessoas interessantes que televisões.
Ser, em oposição a pensar, a discursar, a pregar, a ter, a aparentar, sempre implica uma meta, um cara descontente com os resultados até então obtidos. Não se pode ser algo que não seja bom, se estamos a entender os têrmos (palavra que era assim duas reformas atrás, não é isso?).
"Quando o recurso chegar no STF, será um macaco a dar a sentença, naquele esquema Planeta dos Macacos", dizia um jurista criticando a lentidão dos processos.
"Eh, Brasil!", dizia um amigo se referindo a tudo o que era falta de profissionalismo. A nuance é que "Brasil" soava sempre maravilhosamente, como se fosse um apelido aplicado à pessoa.
Ei, você. Cê tá perdendo tempo. Por que não vai até o fim?
* * *
Seymour na praia falando para a nova amiguinha de 6 anos:
"Vamos esnobar essa onda. Olha ela chegando. Dois esnobes".
* * *
A profissão mais antiga do mundo é a de engenheiro agrônomo.
* * *
Quando olho para a história, olho para coisas que aconteceram.
Sempre houve alguém no momento certo que disse:
"Vai lá, Pedrão, acontece esse negócio!"
* * *
Os valores também acontecem. Não há valor desencarnado. Não há Humanidade. Não há também amor: só presentes sinceros de namoro.
Por isso eu e você gostamos de fatos, e não de conversinha.
* * *
Um cara que só tinha três ternos no guarda-roupas foi eleito o homem mais elegante do ano na Espanha. Muito mais do que esse babaca do Patrick Dempsey. Não é possível ser elegante se o cara não tem caráter.
* * *
Toda hora que você não tiver palavras para expressar um coisa muito ruim, diga apenas "preta Gil".
Quarta-feira, Dezembro 31, 2008
Sexta-feira, Dezembro 26, 2008
A perfect day for bananafish
Lendo Franny & Zooey, do Salinger, acabei por associar, imediatamente, muitas pessoas da minha geração com personagens do livro. A simpática e numerosa família Glas é retratada em vários contos de Salinger: todos são inteligentes e... excêntricos. Os filhos mais novos, Franny e Zooey, foram educados por Buddy e Seymour (já escrevi algo sobre ele aqui), os irmãos mais velhos. Seymour é o mais genial dos irmãos; se olhamos para o lado mau, ele é o coitado que levou até as últimas conseqüências o vazio da família ao suicidar-se sem avisar, de uma hora para outra, em A Perfect Day for Bananafish.
O que identifiquei nessa família é algo que tenho experimentado em amigos e conhecidos: uma dificuldade congênita de adaptar-se ao "mundo normal", e mesmo um desprezo nada tácito pela normalidade. Salinger escreve sobre isso com ironia; embora não tenha a chave para compreender o problema, sabe divertir-se com os próprios enganos. Ele acredita que o zen é a forma mais refinada de lidar com o problema do "nada é verdadeiro" da cultura americana pós-moderna (dal qual o Don Delillo de White Noise é o mais hábil retratista).
As conversas entre Franny e seu irmão são impagáveis. Franny é minha personagem favorita; uma menina prodígio, agora com vinte e poucos anos, levando uma vida oculta de religious freak - ela lê o livro do peregrino russo, que vocês devem conhecer, e não entende nada, apesar de tentar colocá-lo em prática - e agindo graciosamente. É a única personagem nessa linha, junto com Aliosha, que não me causa repugnância. Ela é uma chata, como todas essas garotas desajustadas e que não fazem mal a uma mosca: não conversa, discursa; não explica, expõe; não pensa, sente com o cérebro; é uma ególatra que odeia o próprio ego e é por isso insuportável para si mesma. Entenda-se bem o problema: a garota percebe a falta de autenticidade dos outros, o seu egoísmo e a sua vontade de show-off, mas ela mesma não percebe que não passa de uma versão sofisticada desses homens-massa. Todas as nossas musas intelectuais adolecentes padecem da mesma doença.
Aliás, Franny é o ponto. São muitos problemas concentrados na mesma pessoa; ela mesma diz que está endoidando. Não é uma loucura exógena (ou seja, não é um fator neurológico que a causa), mas uma loucura gnóstica, se me perdoam o salto. Já vi gente passar por isso, e eu mesmo pude sentir o cheirinho de enxofre da "inadaptação", do "descarrilhamento" de que fala Voegelin sem compreendê-lo até o fim. Tudo começa com uma espécie de navalha de Ockham: tudo é ilusão, não há pessoas reais, o mundo é essencialmente desconfortável e alheio. É preciso "matar o ego"; é um impulso virtualmente suicida. Você quer jogar a água da banheira com o bebê junto. E mantém uma vida interior autocentrada, liga para a namorada, discursa, deita-se na cama olhando para a parede. O vazio. Isso tudo é muito poético e charmant, mas é uma vida dura; o problema de fundo é que é uma vida de quem está profundamente enganado a respeito das coisas. Não estou sendo retórico. A inteligência vira-se contra si mesma e transforma a pessoa num ser estúpido e inútil (ao menos na sua casca).
Salinger reveste tudo isso de vida e de profundidade. Ele compreende as suas personagens e se comporta como um pai; não é um assassino como Joyce que, como disse um amigo, tem ódio da sua criação como se fosse um demiurgo da pior espécie. Zooey também compreende o problema quando se volta contra os seus irmãos mais velhos, Buddy e Seymour, que lhes deu essa educação de crianças espertas que, sem perceber, viram eruditos orientalistas cheios de referências culturais e de "sabedoria" (Zooey teria traduzido um Upanishad do sânscrito para o grego clássico para se curar de uma decepção amorosa). Mas o próprio Zooey não sabe sair do buraco. Ele não tem meios. A sua confusão religiosa - a mistura entre elementos orientais gnósticos e um cristianismo chocho do qual desconfia - é uma prova disso.
E o peregrino russo? O livro anônimo (no original Откровенные рассказы странника духовному своему отцу, algo como histórias adocicadas de um peregrigo em busca do seu diretor espiritual) é uma espécie de manual de oração. O amor dos bichos-grilo por ele não é um bom índice de ortodoxia. De fato, o autor do livro saiu de uma escola em parte herética - trata-se do ἡσυχασμός, mas não vou entrar em detalhes - que prega a transformação espiritual através de uma jaculatória, a "oração de Jesus", o velho kyrie eleeeson, que deve ser repetido continuamente. O erro está em atribuir uma espécie de poder mágico à repetição, como se fosse um mantra; a confusão de Franny vai mais longe, até identificá-la positivamente com o mantra e com as tradições orientais anexas. Há obviamente uma forma de ler essa doutrina de modo ortodoxo, e eu mesmo prefiro seguir essa hermenêutica conciliatória em razão do meu estilo aristotélico. Mas é muito fácil errar nesse ponto, e aí está o perigo desse livro. Se ficar claro que yoga não tem nada a ver com oração, mas nada a ver mesmo, então não haverá problema. A procura da paz interior nesse sentido de "cessação da atividade mental" é um bom atalho para o inferno (algo que os ortodoxos, mesmo os hesicastas, sabem muito bem; o que não se pode sustentar é que a essência divina seja acessível neste mundo ou que a graça seja incriada: acreditar nisso seria sair totalmente da ortodoxia).
Eu prefiro os aspectos simpáticos de Franny & Zooey. A compreensão compassiva de Salinger e a sua inteligência vital é comovente e fazem desse freak um dos meus escritores favoritos.
* * *
Ah, feliz Natal.
O que identifiquei nessa família é algo que tenho experimentado em amigos e conhecidos: uma dificuldade congênita de adaptar-se ao "mundo normal", e mesmo um desprezo nada tácito pela normalidade. Salinger escreve sobre isso com ironia; embora não tenha a chave para compreender o problema, sabe divertir-se com os próprios enganos. Ele acredita que o zen é a forma mais refinada de lidar com o problema do "nada é verdadeiro" da cultura americana pós-moderna (dal qual o Don Delillo de White Noise é o mais hábil retratista).
As conversas entre Franny e seu irmão são impagáveis. Franny é minha personagem favorita; uma menina prodígio, agora com vinte e poucos anos, levando uma vida oculta de religious freak - ela lê o livro do peregrino russo, que vocês devem conhecer, e não entende nada, apesar de tentar colocá-lo em prática - e agindo graciosamente. É a única personagem nessa linha, junto com Aliosha, que não me causa repugnância. Ela é uma chata, como todas essas garotas desajustadas e que não fazem mal a uma mosca: não conversa, discursa; não explica, expõe; não pensa, sente com o cérebro; é uma ególatra que odeia o próprio ego e é por isso insuportável para si mesma. Entenda-se bem o problema: a garota percebe a falta de autenticidade dos outros, o seu egoísmo e a sua vontade de show-off, mas ela mesma não percebe que não passa de uma versão sofisticada desses homens-massa. Todas as nossas musas intelectuais adolecentes padecem da mesma doença.
Aliás, Franny é o ponto. São muitos problemas concentrados na mesma pessoa; ela mesma diz que está endoidando. Não é uma loucura exógena (ou seja, não é um fator neurológico que a causa), mas uma loucura gnóstica, se me perdoam o salto. Já vi gente passar por isso, e eu mesmo pude sentir o cheirinho de enxofre da "inadaptação", do "descarrilhamento" de que fala Voegelin sem compreendê-lo até o fim. Tudo começa com uma espécie de navalha de Ockham: tudo é ilusão, não há pessoas reais, o mundo é essencialmente desconfortável e alheio. É preciso "matar o ego"; é um impulso virtualmente suicida. Você quer jogar a água da banheira com o bebê junto. E mantém uma vida interior autocentrada, liga para a namorada, discursa, deita-se na cama olhando para a parede. O vazio. Isso tudo é muito poético e charmant, mas é uma vida dura; o problema de fundo é que é uma vida de quem está profundamente enganado a respeito das coisas. Não estou sendo retórico. A inteligência vira-se contra si mesma e transforma a pessoa num ser estúpido e inútil (ao menos na sua casca).
Salinger reveste tudo isso de vida e de profundidade. Ele compreende as suas personagens e se comporta como um pai; não é um assassino como Joyce que, como disse um amigo, tem ódio da sua criação como se fosse um demiurgo da pior espécie. Zooey também compreende o problema quando se volta contra os seus irmãos mais velhos, Buddy e Seymour, que lhes deu essa educação de crianças espertas que, sem perceber, viram eruditos orientalistas cheios de referências culturais e de "sabedoria" (Zooey teria traduzido um Upanishad do sânscrito para o grego clássico para se curar de uma decepção amorosa). Mas o próprio Zooey não sabe sair do buraco. Ele não tem meios. A sua confusão religiosa - a mistura entre elementos orientais gnósticos e um cristianismo chocho do qual desconfia - é uma prova disso.
E o peregrino russo? O livro anônimo (no original Откровенные рассказы странника духовному своему отцу, algo como histórias adocicadas de um peregrigo em busca do seu diretor espiritual) é uma espécie de manual de oração. O amor dos bichos-grilo por ele não é um bom índice de ortodoxia. De fato, o autor do livro saiu de uma escola em parte herética - trata-se do ἡσυχασμός, mas não vou entrar em detalhes - que prega a transformação espiritual através de uma jaculatória, a "oração de Jesus", o velho kyrie eleeeson, que deve ser repetido continuamente. O erro está em atribuir uma espécie de poder mágico à repetição, como se fosse um mantra; a confusão de Franny vai mais longe, até identificá-la positivamente com o mantra e com as tradições orientais anexas. Há obviamente uma forma de ler essa doutrina de modo ortodoxo, e eu mesmo prefiro seguir essa hermenêutica conciliatória em razão do meu estilo aristotélico. Mas é muito fácil errar nesse ponto, e aí está o perigo desse livro. Se ficar claro que yoga não tem nada a ver com oração, mas nada a ver mesmo, então não haverá problema. A procura da paz interior nesse sentido de "cessação da atividade mental" é um bom atalho para o inferno (algo que os ortodoxos, mesmo os hesicastas, sabem muito bem; o que não se pode sustentar é que a essência divina seja acessível neste mundo ou que a graça seja incriada: acreditar nisso seria sair totalmente da ortodoxia).
Eu prefiro os aspectos simpáticos de Franny & Zooey. A compreensão compassiva de Salinger e a sua inteligência vital é comovente e fazem desse freak um dos meus escritores favoritos.
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Ah, feliz Natal.
Sábado, Dezembro 20, 2008
Jeopardize them
Aqui estou, vivo, embora com seqüelas na mão devido a uma queda numa escada em Curitiba; eis o motivo pelo qual não vou escrever muito.
A verdade é que isto é só um sinal de vida. Ainda estou de férias. Por pouco tempo, é verdade.
* * *
Estou terminando os Irmãos Karamázov, que até hoje não tinha tido tempo de ler. É um tratado sobre muitas coisas. No meio tempo, li um policial muito bom chamado "La Sangre del Pelícano" (2007), de Miguel Aranguren: não percam tempo, encomendem o livro. Ele trata de uma conspiração luciferina de modo muito, e até excessivamente, ortodoxo. Saldo sombrio, em se tratando de dois livros sobre o mal. Sem drama. Ainda assisti pela segunda vez, agora filmada, a uma palestra do L. F. Pondé do ano passado tratando de Dostoievsky.
* * *
Não estive no lançamento da Dicta n. 2; mas aproveito para recomendar, já que está melhor do que o primeiro número. Há dois artigos meus indignos de nota; se ficarem em dúvida, leiam o último, sobre Nicolás Gomez Dávila, só porque é o primeiro artigo brasileiro sobre o fidalgo colombiano. Uma editora me disse que vão publicá-lo em breve no Brasil, o que é uma surpreendente notícia; e cheia de coincidências.
* * *
Se alguém quiser se divertir com uma gramática de acádio antigo, toma lá. Bem, é só um link para mim mesmo.
A verdade é que isto é só um sinal de vida. Ainda estou de férias. Por pouco tempo, é verdade.
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Estou terminando os Irmãos Karamázov, que até hoje não tinha tido tempo de ler. É um tratado sobre muitas coisas. No meio tempo, li um policial muito bom chamado "La Sangre del Pelícano" (2007), de Miguel Aranguren: não percam tempo, encomendem o livro. Ele trata de uma conspiração luciferina de modo muito, e até excessivamente, ortodoxo. Saldo sombrio, em se tratando de dois livros sobre o mal. Sem drama. Ainda assisti pela segunda vez, agora filmada, a uma palestra do L. F. Pondé do ano passado tratando de Dostoievsky.
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Não estive no lançamento da Dicta n. 2; mas aproveito para recomendar, já que está melhor do que o primeiro número. Há dois artigos meus indignos de nota; se ficarem em dúvida, leiam o último, sobre Nicolás Gomez Dávila, só porque é o primeiro artigo brasileiro sobre o fidalgo colombiano. Uma editora me disse que vão publicá-lo em breve no Brasil, o que é uma surpreendente notícia; e cheia de coincidências.
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Se alguém quiser se divertir com uma gramática de acádio antigo, toma lá. Bem, é só um link para mim mesmo.
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