Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

A perfect day for bananafish

Lendo Franny & Zooey, do Salinger, acabei por associar, imediatamente, muitas pessoas da minha geração com personagens do livro. A simpática e numerosa família Glas é retratada em vários contos de Salinger: todos são inteligentes e... excêntricos. Os filhos mais novos, Franny e Zooey, foram educados por Buddy e Seymour (já escrevi algo sobre ele aqui), os irmãos mais velhos. Seymour é o mais genial dos irmãos; se olhamos para o lado mau, ele é o coitado que levou até as últimas conseqüências o vazio da família ao suicidar-se sem avisar, de uma hora para outra, em A Perfect Day for Bananafish.

O que identifiquei nessa família é algo que tenho experimentado em amigos e conhecidos: uma dificuldade congênita de adaptar-se ao "mundo normal", e mesmo um desprezo nada tácito pela normalidade. Salinger escreve sobre isso com ironia; embora não tenha a chave para compreender o problema, sabe divertir-se com os próprios enganos. Ele acredita que o zen é a forma mais refinada de lidar com o problema do "nada é verdadeiro" da cultura americana pós-moderna (dal qual o Don Delillo de White Noise é o mais hábil retratista).

As conversas entre Franny e seu irmão são impagáveis. Franny é minha personagem favorita; uma menina prodígio, agora com vinte e poucos anos, levando uma vida oculta de religious freak - ela lê o livro do peregrino russo, que vocês devem conhecer, e não entende nada, apesar de tentar colocá-lo em prática - e agindo graciosamente. É a única personagem nessa linha, junto com Aliosha, que não me causa repugnância. Ela é uma chata, como todas essas garotas desajustadas e que não fazem mal a uma mosca: não conversa, discursa; não explica, expõe; não pensa, sente com o cérebro; é uma ególatra que odeia o próprio ego e é por isso insuportável para si mesma. Entenda-se bem o problema: a garota percebe a falta de autenticidade dos outros, o seu egoísmo e a sua vontade de show-off, mas ela mesma não percebe que não passa de uma versão sofisticada desses homens-massa. Todas as nossas musas intelectuais adolecentes padecem da mesma doença.

Aliás, Franny é o ponto. São muitos problemas concentrados na mesma pessoa; ela mesma diz que está endoidando. Não é uma loucura exógena (ou seja, não é um fator neurológico que a causa), mas uma loucura gnóstica, se me perdoam o salto. Já vi gente passar por isso, e eu mesmo pude sentir o cheirinho de enxofre da "inadaptação", do "descarrilhamento" de que fala Voegelin sem compreendê-lo até o fim. Tudo começa com uma espécie de navalha de Ockham: tudo é ilusão, não há pessoas reais, o mundo é essencialmente desconfortável e alheio. É preciso "matar o ego"; é um impulso virtualmente suicida. Você quer jogar a água da banheira com o bebê junto. E mantém uma vida interior autocentrada, liga para a namorada, discursa, deita-se na cama olhando para a parede. O vazio. Isso tudo é muito poético e charmant, mas é uma vida dura; o problema de fundo é que é uma vida de quem está profundamente enganado a respeito das coisas. Não estou sendo retórico. A inteligência vira-se contra si mesma e transforma a pessoa num ser estúpido e inútil (ao menos na sua casca).

Salinger reveste tudo isso de vida e de profundidade. Ele compreende as suas personagens e se comporta como um pai; não é um assassino como Joyce que, como disse um amigo, tem ódio da sua criação como se fosse um demiurgo da pior espécie. Zooey também compreende o problema quando se volta contra os seus irmãos mais velhos, Buddy e Seymour, que lhes deu essa educação de crianças espertas que, sem perceber, viram eruditos orientalistas cheios de referências culturais e de "sabedoria" (Zooey teria traduzido um Upanishad do sânscrito para o grego clássico para se curar de uma decepção amorosa). Mas o próprio Zooey não sabe sair do buraco. Ele não tem meios. A sua confusão religiosa - a mistura entre elementos orientais gnósticos e um cristianismo chocho do qual desconfia - é uma prova disso.

E o peregrino russo? O livro anônimo (no original Откровенные рассказы странника духовному своему отцу, algo como histórias adocicadas de um peregrigo em busca do seu diretor espiritual) é uma espécie de manual de oração. O amor dos bichos-grilo por ele não é um bom índice de ortodoxia. De fato, o autor do livro saiu de uma escola em parte herética - trata-se do ἡσυχασμός, mas não vou entrar em detalhes - que prega a transformação espiritual através de uma jaculatória, a "oração de Jesus", o velho kyrie eleeeson, que deve ser repetido continuamente. O erro está em atribuir uma espécie de poder mágico à repetição, como se fosse um mantra; a confusão de Franny vai mais longe, até identificá-la positivamente com o mantra e com as tradições orientais anexas. Há obviamente uma forma de ler essa doutrina de modo ortodoxo, e eu mesmo prefiro seguir essa hermenêutica conciliatória em razão do meu estilo aristotélico. Mas é muito fácil errar nesse ponto, e aí está o perigo desse livro. Se ficar claro que yoga não tem nada a ver com oração, mas nada a ver mesmo, então não haverá problema. A procura da paz interior nesse sentido de "cessação da atividade mental" é um bom atalho para o inferno (algo que os ortodoxos, mesmo os hesicastas, sabem muito bem; o que não se pode sustentar é que a essência divina seja acessível neste mundo ou que a graça seja incriada: acreditar nisso seria sair totalmente da ortodoxia).

Eu prefiro os aspectos simpáticos de Franny & Zooey. A compreensão compassiva de Salinger e a sua inteligência vital é comovente e fazem desse freak um dos meus escritores favoritos.

* * *

Ah, feliz Natal.

11 comentários:

Vinícius de Oliveira disse...

E o que você acha de Thomas Pynchon, companheiro de geração de Salinger e em muitos aspectos parecido com ele?

Julio disse...

Thomas Pynchon, grande cara. Um capítulo à parte.

Ronald disse...

Há uns anos peguei 'O apanhador no campo de centeio' e, desde então, não consegui ler mais nada dele. Comecei errado ou não devo esperar muito além daquilo? Abrç.

Zé Luis disse...

Creio que você foi injusto com o Relato de um Peregrino Russo. Ao longo da trajetória de aprendizado o peregrino vai se dando conta de que não se trata cessar a mente, mas de dilatar o coração. O episódio em que ele perde os seus livros, ou quando é culpado pela fuga da menina que não se queria casar um cara meio bruto são evidências claras de que ele, oh raios, está aprendendo como orar. Admiro no livro os diálogos que ele vai travando com as pessoas que encontra no meio do caminho. Claro que é meio romântico sair por aí a procura da oração incessante, sem nada no bolso, apenas com sede de aventura. Assumo que às vezes tenho vontade de fazer isso, e é claro que é uma fuga. O difícil é encontrar esta aventura na rotina mesmo. Bem, pelo menos para mim é difícil. Outro detalhe: da forma como você fala da vida normal, ela parece mesmo desprovida de filocalia (e coloque em grego se quiser); oras bolas, e não é em uma das passagens mais bacanas que o peregrino vê o mundo como algo bom e belo? O problema dos intelectuais é que eles têm medo da boa imanência: nunca serão contemplativos.

Julio disse...

Talvez eu tenha, como sempre, me expressado mal. Inclusive no conto de Salinger, Zooey redime grande parte dos erros românticos dos pseudo-hesicastas (aqueles que lançam mão do expediente da oração). Eu li o relato e inclusive ele foi bastante citado por amigos meus lá no convívio. O fato é o seguinte: já está provado por séculos que é possível ser contemplativo tanto no claustro como no meio do mundo; ambos têm as suas dificuldades. A minha crítica se dirigia apenas a erros doutrinais, e não ao peregrino russo: a tendência ao yoga existe, embora latente, mas é *apenas* uma tentação. Sorry se me expressei mal, meu caro.

Julio disse...

Ah, e outra coisa, Louis: estive conversando com o Henrique, e descobri que ele é um grande 'aprovador' do peregrino russo... O Daniel Rops fala muito bem dele num daqueles grossos volumes da História da Igreja.

Zé Luis disse...

Sim, o teu zelo faz sentido. Fui enfático demais, tenho grande admiração pelo Peregrino, mas tens razão em desmascarar o caráter mágico de usar jaculatórias como mantras. É possível, no mais, estar no mundo, ser do mundo, e contemplar o mundo (e o além-mundo). Minha dúvida é se qualquer modo de vida nos aproxima do sentimento tão moderno de evasão. De qualquer forma, ninguém é ferro, de vez em quando é bom bater uma bolinha. Outra coisa bacana no peregrino é uma inocência, uma pureza da alma que me soa extra-terrestre, e por isso, desejável. Merquior em As Idéias e As Formas e aqueles parágrafos que o Carpeaux cortou da segunda edição da História da Literatura Ocidental voltam ao ponto: a distância cada vez maior que há entre a vida normal e o romantismo na arte...

Jorge disse...

:-D Leia mais Salinger, hombre. Você lê Salinger e nos dá dos melhores posts do blog -- quase uma tradição.

Jorge disse...

tristemente às vezes eu fico mui mui travado na ponta das duas estradas: a via da Ortodoxia e esta Outra.

será que todas as Tradições (soa perenialista, mas estou quase falando disso mesmo) de Lá levam ao inferno?

Julio disse...

Jorge, a resposta mais ortodoxa a isso é a seguinte: não é que levem ao inferno assim, preto no branco, mas é melhor não arriscar :)

Se o sujeito não tiver acesso à revelação (essa condição é sine qua non, pois via de regra extra ecclesiam nulla salus) mas for bom e procurar de fato o melhor, é de bom tom deixar espaço para a misteriosa misericórdia divina; se calhar, Deus se encarregará de colocá-lo no céu.

Agora, se tiver acesso à revelação (ao depositum fidei), e mesmo assim ficar dando uma de yogue ou o que for... Eu não arriscaria.

Jorge disse...

Faz sentido, faz sentido... é mania minha mesmo colocar todo mundo no inferno :-P