Sexta-feira, Novembro 07, 2008

Talking shamelessly about retriutga

Por ocasião de um trabalho de tradução e comentários que estou fazendo, intrigou-me o sentido do verbo grego kataphroneô, particularmente na seguinte passagem da Ética a Nicômaco:

"De fato alguns possuidores de bens [da fortuna] podem se tornar desdenhosos e insolentes. Sem a virtude não é fácil suportar harmoniosamente os sucessos; assim, não podendo lidar com eles, julgando-se superiores aos outros, acabam por desprezar os demais, embora ajam como os outros. Imitam o magnânimo sem ser semelhantes a ele, fazendo o que eles fazem naquilo em que são capazes; mas não agem por virtude ao desdenhar os demais. Já o magnânimo desdenha justamente os outros – e nisto sua opinião é correta" (EN 1124a29 – 1124b6).

Traduzi kataphroneô, provisoriamente, por desdenhar, que é a tradução comum. Mas será assim?

O contexto é o seguinte: enquanto o vaidoso é esnobe (snob, sine nobilitate), o magnânimo é verazmente nobre. Veja essa frase do Duque de Bedford: "Snobbery is, to a great extent, the joy of looking down upon others. And our world's so marvellously constructed that everyone—but everyone—finds someone to look down upon". Look [think] down - trocando olhar por pensar - é o sentido literal de kataphroneo.

E o problema é simples: Aristóteles advoga o desprezo puro e simples? Como é então que Tomás de Aquino sufragou a visão aristotélica da magnanimidade, se o desprezo despreza a humildade? Esse é o tipo de questão que anima os aristotélicos a "jogar na cara" dos filósofos católicos, de modo nietzscheano, que Aristóteles é anti-cristão (de cara, isso é um anacronismo besta).

Dá até preguiça de responder, mas vamolá. Prefiro lidar com as coisas, nessas questões, antes que com citações e pensamentos. O megalopsychos, segundo Aristóteles, é alguém que tem todas (?) as virtudes; mas esse conjunto está coroado pela alma grande, ou seja, por um olhar a vida como um empreendimento em busca das coisas grandes - a honra, a glória e a contemplação, algo que vale para todas as épocas, se fazemos os devidos ajustes modulares...

A atitude do megalopsychos diante dos outros é, estritamente, a de alguém que não perde tempo: apesar de afável e respeitoso, ele sabe muito bem que o grosso da humanidade está ocupada com coisas desprezíveis. Sim, é fácil passar do "ocupado com coisas desprezíveis" para o "essa gente é desprezível". De certa forma - vamos tomá-lo como veracidade - quem se ocupa com o medíocre é medíocre. Basta pensarmos em nós mesmos, que ficamos assistindo tv no sofá ou lendo romances a tarde inteira. Não temos porque ficar irritados se alguém nos mostra que somos medíocres, pois isso é um fato. Isso não afeta nossas potencialidades, o nosso ser: temos a dignidade que qualquer homem tem - embora esse aspecto não tenha sido desenvolvido por Aristóteles, não o contradiz. Mas enfim, não basta que sejamos potencialmente dignos; é preciso procurar com obras a excelência. E nisto o magnânimo anda bem ao não esperar muito e não perder muito tempo com medíocres consumados.

Logo, esse olhar de cima do magnânimo é plenamente justificado; tanto que uma das virtudes que se lhe atribui é a da veracidade: ele nem elogia, nem critica sem razão, e é muito discreto nesse aspecto. Mas olhar de cima não é desprezar no sentido anti-cristão: é simplesmente olhar a realidade como ela é. É facílimo perder o controle nesse momento e passar a odiar, a desprezar de verdade, a comportar-se como um esnobe; mas quem disse que a virtude é fácil? É quase impossível ser, ao mesmo tempo, magnânimo - estar cheio de qualidades - e humilde - reconhecer que, mesmo assim, não somos "a última bolacha do pacote", e muito menos deuses. Achar-se como Deus é a maior estupidez, mas como isso é freqüente...

Veja que a magnanimidade, dentro de um esquema superior - que é o da filosofia + revelação, que consegue vislumbrar o caráter de criaturalidade e de dependência metafísica do homem - é plenamente compatível com a humildade (=veracidade, realismo). Por isso não é de estranhar que a ética clássica-cristã não exija "atitudes humildades" de sujeição servil por parte de quem tem muitas virtudes: não faz sentido que um homem superior ande como se fosse um maldito hippie, ou que peça desculpas por existir, como um beato. Servire Deo, regnare. Diante de Deus - que é o único ser a quem o magnânimo atribui supremacia real - ele é humilde; diante dos outros, age como qualquer pessoa da sua posição agiria, sem achar que é mais, ou menos, do que em verdade é (por uma espécie de instinto de adequação e auto-consciência profunda, nunca kantiana).

Tudo se resume nessa plena aceitação da realidade, mesmo que seja contrária a nós. Quase tudo o que é servil é, no fundo, orgulhoso.

Por isso kataphroneô readquire um sentido mais próximo: to think little of something, como costuma vir em alguns dicionários ingleses. Se algo é pequeno, de pouco valor, nada mais basalmente realista que kataphroneá-lo.

6 comentários:

Zé Luis disse...

Grécia antiga, todo mundo (ou quase) de toga, colunatas, estátuas, etc.

— Tio Ari, vamos ao teatro ver a última do Eurípedes!

— Não posso, estou terminando a Poética, meu caro sobrinho.

— Ah, tio Ari, você me prometeu!

— Tá bom, mas vamos com calma que não estou me sentindo bem.

Aristóteles morre enquanto voltava do teatro. Tudo que é pensável é possível, então me digam: faltou nobilitate?

O pinguim sagaz disse...

Crao Jiúlo:

De aorcdo com psqueisa da Unvireisadde de Cmabrigde, a odrem das lteras em uma plavara não ipmrota. A úcina cisoa ipmotratne é que a piremira e a útimla ltreas etseajm no lguar ctreo. O rseto pdoe etasr uma ttaol bnauguça, que vcoê adnia pdoreá ler sem perolbmea. Itso orroce pruqoe a mtene haunma não lê cdaa lreta idnvidailuemtne, mas a pvrlaaa cmoo um tdoo. E eu que smrepe pneesi que a rãviseo era ievídnicseprml!

Abaçros

PS: Vê se me mdnaa um e-mieal!

Ricardo Leal disse...

CAVEAT: COMENTÁRIO LONGO
Caro Lemos, há duas semanas estou me devendo um comentário a partir dessa desavergonhada provocação. Queria algo mais refletido, mas vai desse jeito improvisado e fragmentário. I) Para tirar da frente: tenho aqui “disdain” em tradução inglesa; mas em português "menosprezar" não é talvez melhor que "desdenhar"? II) Ainda em registro pré-revelação: é interessante aquela conhecida história de qualificar a magnanimidade, perto desse trecho seu da EN, como “um certo ornamento de todas as virtudes”, “kosmos tis (...) tôn aretôn” (um dia aprenderei sistemas de transliteração). Ornamento coisa nenhuma. Kosmos tis. Isso ajuda a explicar a possibilidade de uma leitura cristã, mesmo para quem não sabia grego como Santo Tomás ou Dante: bom aluno de Platão, o Estagirita reflete sobre megalopsiquia em contexto que aponta para a ordem verdadeira e bela. Refere-se a uma virtude “cósmica”, e portanto à possibilidade humana de uma sabedoria, uma inteligência prática afim com o mundo supra-lunar. Nada a ver com a estetização da natureza e de si próprio que, conforme apontam Brague e outros, só é possível “graças a conquistas técnicas e à objetivação” que elas permitem; e que freqüentemente resulta na hybris daquele mundo como idéia que esteriliza Platão. III) Pensando como cristão, você nota a quase impossibilidade de alguém “ser, ao mesmo tempo, magnânimo – estar [cosmicamente] cheio de qualidades - e humilde”. Dante, que foi pensador também, achou um bypass aliás newmaniano para essa quase aporia: associar magnanimidade e “gentilezza”, aquele “valore” sobre o qual discorre no livro quarto do “Convivio”. Mas a linha é mesmo tênue entre isto e soberba: Farinata que o diga (cf Inf. X, vg 73-75). Engraçado o Zé Luis recordar a “nobiltate”, freqüentemente sinônimo da “gentilezza” que o Poeta lutou nas “Rimas” para associar em uma única definição com “vertute”. Concluiu que o primeiro conceito é mais abrangente que o segundo: “È gentilezza dovunqu´ è vertute, / ma non vertute ov´ella”. Ou seja, é possível “nobiltate” sem virtude (Farinata, Ulisses). IV) Em “Tanto gentile”, o admirador de Aristóteles meio que retorna à noção proposta na EN, de magnanimidade/gentileza como virtude excelsa mas não possível a todos: ela é um “seme di felicità (...) / messo da Dio ne l´anima ben posta”. Em que sentido bem posta? Providencialmente dotada ao nascer de certos dons naturais, sociais, etc, que a habilitam a exercer sua vontade magnanimamente. São Bernardo, último guia no Paraíso, terá sido nobre/gentil e virtuoso no mais alto grau. Cavaleiro monge. [Me escorei muitíssimo neste parágrafo e no anterior em Patrick Boyde, grande estudioso de Dante] V) Santo Tomás sutiliza a coisa à sua maneira amavelmente clara. Basta um pequeno excerto do trecho da Summa Theologiae sobre a matéria; cut and paste to the rescue: “In man there is found something great, which he possesses by the gift of God; and some shortcoming which attaches to him from the weakness of his nature. Now magnanimity makes a man deem himself worthy of great honours in consideration of the gifts that he possesses of God; while humility makes him think little of himself in consideration of his own shortcomings. (…) humility honours others and accounts them superior beings, in so far as it discerns in them any of the gifts of God. Hence it is said of the just man: `In his sight the malignant is brought to nothing,´ which points to the contempt which the magnanimous man feels: `but he glorifieth them that fear the Lord,´ which points to the honour that the humble man pays. And thus evidently magnanimity and humility are not contrary, because they proceed on different considerations”. VI) Olhando para Aristóteles through the looking glass, ie, pensando no problema em si e desgrudando da EN, há soluções/formulações alternativas e interessantes . Ildefonso Herwegen (século XX), um grande comentador da Regra de São Bento, ao refletir sobre a humildade radicalmente ali proposta, lembra da etimologia da palavra Demut, algo próximo de humildade/modéstia em alemão. Diz mais ou menos que foi introduzida na língua corrente após a evangelização daquelas bandas, quem sabe justamente para responder à necessidade de casar altivez pagã e serviço cristão. A palavra medieval parece que era Diomuti, algo assim como ânimo (Mut) de servir (dienen).Grande ânimo de servir, grande humildade... VII) "Servire Deo, regnare" – mas no final das contas, “por teu prestígio econômico és um zero..., por teu prestígio social, outro zero..., e outro por tuas virtudes, e outro por teu talento... Mas, à esquerda dessas negações está Cristo...” (Caminho, 473). Non nobis, Domine. O que aponta São Josemaria vale independente de qualquer talento visível.

Julio disse...

Caro Ricardo,

Comentário de perder o fôlego. Estou ainda escrevendo o artigo, e vou te mandar em seguida. Por Júpiter, esqueci onde vc mora. Poderia me mandar um e-mail com o seu e-mail? Creio que tenho uma proposta "para o bem da cultura" para te fazer. Meu e-mail é old.mores@gmail.com. O melhor seria pessoalmente, mas creio que vc não planeja vir para SP tão cedo... Abração.

Anônimo disse...

E menos-prezar? Se bem que soa tão pejorativo como desdenhar, além do que, faz pensar no seguinte: quem menospreza algo, preza menos esse algo do que... o quê?

Em tempo: não foi a regra do porquê que mudou, foi você que sempre escreveu errado.

Felipe

Remo M. Filho disse...

Condescender?