O Sol alto e vazio. Felipe Lacerda e eu entrávamos pela porta dos fundos da casa abandonada que há na rua Direita. Nosso objetivo era apenas observar o que havia por lá e dar o fora.
«Felipe, está vendo aquele crânio chifrudo ali?»
«Que crânio chifrudo? Aquilo é uma cabeça de boi».
«Bem, uma cabeça de boi seca e sem carne é um crânio chifrudo, cacete».
«É que soa mal dizer ‘crânio chifrudo’. Parece coisa do demo».
«A maçonaria é coisa do demo. É uma casa de maçons. Ou era. A Cíntia me disse que seu pai freqüentava essa casa nos anos 70. De costeletas e tudo. Sei lá, capas e espadas e essa coisa toda».
«Por Zeus, isso me dá arrepios. É melhor a gente fazer o relatório e sumir daqui. Não quero ser visto num moquifo do demo, fazendo sabe-se lá o que».
A verdade é que não sabíamos exatamente o que estávamos fazendo lá. A casa fora abandonada nos anos 90 e nunca conseguiram vender. Meu pai, que é corretor, diz que o imóvel é «invendável» ou o que seja. A vizinhança se limita a dizer que é mal-assombrada.
Tivemos de pular o muro, passando por um matagal absurdo que praticamente impedia que a pessoa tivesse acesso à casa. A porta estava aberta, e estávamos numa pequena sala, um hall dos fundos, com um espelho invendável e uma cortina invendável. Havia dois corredores logo em frente. Seguimos pelo da esquerda, com o nariz tapado. Havia colônias de mofo e sabe-se lá o que mais, que fazia o local cheirar a século XIX, mesmo com aquele pé direito alto. Era uma mansão de uns três andares, com muitos cômodos; os telhados eram confusos, com pequenas torres e outros desníveis.
Exploramos a casa com diligência. 23 cômodos no total, caveiras, janelas góticas e antigüidades inglesas. No começo estávamos com medo; mas depois o medo se transformou em cautela, e a cautela em amizade. Meia hora depois estávamos adorando o local.
«Precisamos comprar isso aqui, meu», disse eu a Felipe.
«Você tirou as palavras da minha boca. Eu já estava fazendo a contabilidade».
Felipe era um cara rico. Fazia economia na FEA-USP e seu pai era um grande advogado tributarista. Fiquei pensando que a aquisição da casa não era um sonho distante. Poderíamos reformar a mansão e fazer dali o nosso QG.
A vida naquele tempo era meio maluca. As pessoas começavam com medo e acabavam encantadas.
Eu e a Cíntia, minha noiva, estudávamos Arquitetura & Design, éramos gente moderna e «prafrentex»; havia uma banda indie formada por mim, o Felipe, o Elton, o Pólux e mais três instrumentistas eventuais. Lançáramos o último CD - «Música Para Gente Rica» - por uma gravadora finlandesa, pela Internet, um mês antes da invasão. A banda se chamava ora Straight-Edge Junkies, ora Meu Pai é São Tomás, que abreviávamos M.P.S.T. para a coisa toda soasse como um partido do DCE formado por vagabundos maconheiros. Abrimos para o Au Revoir Simone quando elas vieram tocar em São Paulo, e olhamos o trio novaiorquino de cima para baixo. Afinal de contas, todos os integrantes da nossa banda eram os primeiros alunos das respectivas classes, sabiam várias línguas, tocaram em orquestras e conheciam a Eneida de cor, como Dante. Uma das senhoritas da Au Revoir Simone exclamara, antes de soltar uma boa risada feminista:
«You guys are kinda WASP, but you realy kick ass».
Felipe, enquanto acendia um cigarro Winston, disse em espanhol:
«La gente piensa que vosotras nos precederían en el show».
E Pólux, em francês, que para ele era grego:
«Un veil amie, El Greco, a fâit quelques remarques... Vous êtes... Comme j’en dît? Aussi comme Jordi Savall écoutant pour le premier fois la pièce “Voix humaines”».
Não era exibição; era auto-ironia. Poucos perceberam. Uma tiete procurou Pólux e corrigiu o seu francês, que parecia uma tradução literal do romeno. Atualmente são noivos. Vão casar em outubro; a moça está fazendo doutorado sobre a narrativa contemporânea – mais especificamente sobre «A confusão dos tempos e modos verbais na prosa de Julio Lemos». Basicamente, ela queria saber se a confusão era voluntária ou involuntária.
Quando saímos da casa, já estava escuro. Ao cair na calçada, eu e Felipe fomos surpreendidos pela Cíntia, que estava vestida de policial. Ela foi logo dizendo:
«Aquele carro é de vocês?»
«Bem...», era eu entrando no jogo dela, «para dizer a verdade é do pai desse meu amigo, que...».
«Muito bem, quero a habilitação de motorista do... motorista. Quem está dirigindo essa porcaria?»
«Sou eu», disse Felipe com autoridade.
Cíntia insistiu com a sua brincadeira. Fomos multados: o carro estava muito perto da esquina, o que era uma infração do artigo tal do Código Brasileiro de Trânsito. Entramos num discussão sobre o desaparecimento do «Nacional» do antigo Código, algo que nos parecia um sinal dos tempos.
Com o canhoto da autuação, entramos no carro, fulos da vida. Para descontrair, escutamos «Do You Realize?», do Flaming Lips. A letra dizia: Do you realize / that everyone / you know / someday / will die? Apliquei-a a Cíntia; mesmo com aquelas roupas de guarda de trânsito, um dia ela iria morrer.
Adquirimos a casa no ano seguinte. Custou-nos R$ 76.000; o proprietário era um vovô maluco, que passava o dia escutando música medieval e descendo o pau no bull terrier.
«Po**a, vocês disseram 23 paus? Não dá nem pra pagar o seguro do carro».
«Cain, cain, cain», disse o cachorro, perplexo.
«Cala a po**a da boca, seu vira-lata». E desceu-lhe o taco de baseball no focinho. O cão voltou para debaixo do armário. Eu e Felipe ficamos impressionados.
Fechamos no montante mencionado, e o velho abriu um sorriso hierático.
«Fechem com a velha».
A velha era a D. Mercedes, uma mineira gentil e cheia de savoir-faire. Ela... elaborou um contrato na máquina de escrever, pegou a assinatura de um neto, que é advogado, e foi até o cartório conosco.
* * *
Percebi que a vida em São Paulo tornara-se mais cosmopolita que a de Nova Iorque. Ninguém mais falava português! O futuro! Tudo o que os teóricos da pós-modernidade confabulavam aconteceu, não nos anos 90, mas na metade do século XXI. Eu podia jurar que tinha conhecido um cara num show, cujo nome não me lembro, que morava numa casa em estilo sumério, fazia fotossíntese – era tipo uma dieta sem comida – e trabalhava como office-boy de um... carteiro.
As conspirações de brincadeira se multiplicavam. Até as faxineiras estavam dentro. Uma vez, um cartorário anônimo alterou a programação do grande visor da prefeitura, que informava quanto os cidadãos haviam pago de impostos desde o início do ano – uma cópia do da Associação Comercial –, fazendo com que ele exibisse haicais e provérbios de La Bruyére. Quem diria!
Nem eu nem Felipe nos casamos naquela época. Pólux regularizou a sua situação com a tiete, depois de ela ter tomado pau no doutorado: fora contratada pela Coca-Cola como agente de marketing e o tempo acabou ficando curto. Felipe entrou para a Cartuxa, e eu, de comum acordo com a Cíntia, resolvi fazer um longo retiro espiritual na Califórnia. Lá percebi que não tinha vocação de religioso – vai saber o que me passara pela cabeça -, mas que podia dar um bom corretor de imóveis. Entrei para a Imobiliária Ícaro, cujo fundador era o pai do Felipe, e acabei me tornando o cara responsável pelas vendas na Vila Nova Conceição.
Entrei como sócio em pouco tempo. Havia uma sócia chamada Jane «Janis Joplin» de Marchi, uma senhorita de 32 anos que tinha sido uma hippie retrô na adolescência, donde granjeara o apelido. Ela gostou do meu trabalho e me convidou a fazer parte do seleto grupo que ganhava dinheiro por ali, logo depois da joint venture com a Gonçalves & Jenner e da compra da Marquesa de Santos, uma imobiliária gigante, cujos sócios resolveram ir para o ramo do tabaco. Eu não tinha muito dinheiro, mas ela me emprestou um bocado e disse que eu a poderia pagar quando saísse o... casamento.
«Casamento? Não entendi, doutora».
«Não me chame de doutora, por favor... Tolinho. Eu quero me casar com você».
Era uma cara de pau! Uma mulher séria, que usava óculos e tinha as orelhas um pouquinho afastadas, que nunca olhara para mim nem para ninguém, de repente me faz uma proposta dessas. Ela devia estar brincando.
«Ainda não entendi... Como assim, casar... bem, eu não gosto que brinquem assim comigo».
«Você está comprometido com alguém? Não que eu saiba. Me desculpe, mas eu já averiguei isso. Não achava que seria honesto fazer uma proposta dessas se não soubesse que a pessoa estava livre, ou ao menos estivessem presentes as... as condições de possibilidade... Já leu Kant?»
Eu ri, ela também. Que honestidade intelectual, que hombridade... Eu sempre tivera certeza de que as mulheres eram mais homens do que os homens da metrópole. Oh manhood! Ela estava me cantando do modo antigo. Como eu estivesse a rir, continuou:
«Está surpreso? Não tinha percebido? É, eu não sou do tipo sentimental. Quando quero uma coisa, vou até o fim».
* * *
Eu tomei as rédeas da situação.
«Que tal um café depois do expediente?»
«Depois do expediente...»
«Não, pode ser agora».
Fomos até o Girondino, que ficava ali perto. Os garçons eram cordiais e discretos, e a coisa já tinha uns 200 anos de existência. O que mais se via eram estudantes da São Francisco revisando matéria para a prova, enquanto tomavam um expresso após o outro.
Sentamo-nos perto da entrada. O dia estava nublado, muito úmido e fresco. Jane estava de cachecol, seguindo a última moda. Tinha um aspecto franco-germânico, se me permite dizer: uma beleza um tanto dura, mas confortável, de mulher competente e straight-to-the-point. Eu não sabia muito bem como me comportar diante dela, mas não estava intimidado. Era um mundo novo, bem diante de mim. Talvez ela estivesse brincando, é verdade, mas parecia a coisa certa.
«Me conte a sua vida. Mal te conheço, Jane», convidei, usando pela primeira vez esse tipo de tratamento informal. Eu me sentia num filme enlatado dublado, desses de Sessão da Tarde. «Ei, Johnny, seu grande – filho da mãe!»
Ela pediu dois expressos ao Tobias, antigo garçom da casa, e começou a tratar do assunto.
«Que posso dizer? Fui criada em São Paulo e sempre morei aqui. Meu pai é neto de italianos, mas nasceu aqui também. Tenho quatro irmãos, homens. Como todo mundo sabe, queria ser diplomata, mas não suportei as aulas de economia daqueles... cursos preparatórios para o Itamaraty».
«Não valia à pena enfrentar a coisa?»
«Acho que até valia. Mas fui fraca. Estudava só coisas que me interessavam. Não é o melhor caminho. Hoje mesmo penso que, com a mentalidade que tenho hoje, teria enfrentado. Mas enfim, agora é tarde».
«Mas você só tem... 32 anos!»
«Como sabe a minha idade?»
«Deve ter sido alguma indiscrição minha. Perguntei ao Nelson...»
«Quer dizer que tinha algum interesse em... em mim?»
«Lógico que tinha, bem, digo, não interesse... É que me chamou à atenção o fato de você – doía-me o você – ser tão aplicada e, vamos dizer, normal. As mulheres há muito tempo vivem de aparências. E você não me parecia que fosse desse tipo».
Desse tipo, que expressão!
Ela se esquivou do elogio:
«Sei muito sobre você. Não dados históricos, mas... como que uma biografia implícita. Que expressão boba! Mas é isso. Acho que era o Machado de Assis que dizia algo assim. Não sei onde li. As pessoas, sem querer, têm uma biografia implícita: mesmo com a nossa liberdade, podemos ter uma idéia de como a pessoa a exerceu».
«Epa, não sou nenhum anjo», disse eu, um pouco decepcionado – involuntariamente – com a sintaxe janeana.
Não era hora de fumar, mas vi que tinha de ser eu mesmo, com os meus hábitos; o café pedia tabaco. Saquei um maço de Gauloises, comprados num momento de vaidade, e cheguei a oferecer um cigarro a ela, se não me engano. E ela aceitou. Aquele isqueiro da Bic, por Zeus.
«Somos uma raça em extinção!», exclamou.
Depois do silêncio habitual, continuamos.
«É verdade que tem um amigo que entrou para a Cartuxa?»
«É, o Felipe. Você conhece o pai dele: é o dono da Ícaro». Estávamos entrando em assunto delicado. Ela estava surpresa. «Ele é meio maluco, mas sabe o que quer. Aliás, ele estava ainda fazendo doutorado em economia. Desde que ele foi pra... lá... não tive mais notícias».
«Natural. Já li algo sobre os cartuxos. Ou foi um filme?»
«Deve ser aquele filme alemão, acho, ‘O Silêncio de Deus’, não é esse?»
«Isso, isso mesmo! Eles se tornam como que anônimos. Mas me pareceu gente de personalidade. Aposto que o seu amigo está numa boa».
Estranhei o palavreado, mas isso me fez me sentir mais à vontade.
«Está numa boa, com certeza. Também assisti ao filme. O diretor fez uma proposta ao, sei lá, ao chefe deles, e o cara, o monge lá, disse que retornaria a ligação dizendo se topava ou não, se deixava o cara fazer o filme lá dentro. E dez anos depois ele ligou, dando o OK».
«É verdade, isso aparece no filme acho. É outra concepção do tempo».
Na literatura, as pessoas só dizem coisas inteligentes. Na vida real, a coisa é menos sutil. Olhem só o que eu disse:
«É, isso parece de outro mundo, mas eles têm lá as suas razões».
«Têm, com certeza. Me parece razoável. Mas e você? Já passou por algo assim? Eu tive de esperar dois anos para ser contratada como advogada. Antes passei num concurso para escrevente, e trabalhei um tempo com isso», disse ela, rindo.
«Nada mal. Temos de ter paciência. Diga-me: você já teve muitos... me desculpe a pergunta... namorados, paqueras?», as palavras me escaparam um pouco emboladas, eu estava com vergonha.
«Hahaha, paqueras, fazia tempo que não ouvia essa palavra. Bem, eu acho que tive, antes dos 20. Depois o trabalho me absorveu, e há outras razões. De repente, ninguém mais parecia responsável o suficiente. Eu mesma não me sentia preparada. Ainda no século XX...».
O assunto parecia ficar sério demais para ela.
«Ainda no século XX?», perguntei, esperando a conclusão.
«Ah, deixa pra lá. Não sei o que queria dizer».
Os seus olhos denunciavam alguma intranqüilidade, pouco comum nela, pelo que eu sabia. Algo me dizia que... nunca voltaríamos à proposta de casamento. E eu já estava apaixonado.
Pedimos mais dois expressos.
«Desculpe, mas fiquei um pouco atrapalhada. Não sei falar de mim mesma».
«Não se preocupe, Jane. Aliás, acho que fui pessoal demais nas perguntas. Eu é que peço desculpas».
A velha mansão maçônica, os shows, a minha imaturidade desfilavam diante dos meus olhos, como se eu estivesse a ponto de morrer. Não sabia como conduzir uma conversa! A expectativa de algo que parecia que não iria acontecer estava me deixando ansioso.
«Me dá um minutinho?», ela perguntou.
«Lógico!»
«Já volto».
Ela foi até o toilette. Voltou uns 20 minutos depois, ao que parece, com a maquiagem refeita e os olhos um pouco vermelhos. Ai de mim!
«Tudo bem com você?»
«Desculpa a demora. Recebi uma ligação, e não queria te incomodar. A pessoa não desligava!»
* * *
Não sei porque, mas aquele dia no café me pareceu um episódio de «Você Decide», um antigo programa de televisão que meus pais assistiam, em que a história chegava a um ponto e os telespectadores ligavam, dizendo qual o desfecho da sua preferência. Normalmente isso envolvia uma questão polêmica imbecil, como a do marido que tinha de se decidir se abandonava a esposa para ir viver com a secretária ou se voltava para a esposa.
Ulisses se acorrentou ao navio para escapar à sedução das sirenes, cuja forma nada tinha a ver com a das sereias que conhecemos. Eu me via como... uma sirene! Jane estava amarrada ao mastro do navio!
Passaram dois meses, e Jane jamais mencionara a questão do casamento. Estaria eu a sonhar naquela ocasião? Entendera errado? Naquele dia, notei que parecia ser eu a pessoa que se tinha declarado: eu tinha feito a proposta, e estava esperando a resposta dela. Percebia a história da minha vida – maldita expressão – como um conjunto de fragmentos sem conexão, sem começo, meio e fim. Quando assistimos a um filme, percebemos claramente que tudo tem um propósito: ninguém recebe uma ligação por engano, ou se envolve na preparação de uma festa que nada tem a ver com o enredo. Bem, a vida não me parecia ser assim.
Tudo ficou ainda mais estranho quando soube que Jane estava noiva.
«Sabia que a Jane está noiva?», informou-me o Nelson, que era um dos gerentes.
«Poxa, não sabia! Que bacana...».
Hipócrita. Eu gostaria de ter perguntado quem era, mas o pudor me impediu; no dia seguinte ouvi uma conversa, sem querer, em que se mencionava um corretor – seria alguém da Ícaro? – que estaria noivo de alguém.
A notícia foi como uma bomba. Continuei trabalhando normalmente, até com mais intensidade, na esperança de que isso me pudesse distrair. Assisti naquela semana a um filme do Buñuel, em que as pessoas ficavam presas numa casa... aberta... e ninguém conseguia sair.
Jane sequer olhava para mim. O empréstimo que ela me fizera pesou-me. Se ela ia casar, o que será que o cara pensaria de mim? Que sentido teria para ela emprestar dinheiro para um cara que... só pagaria o empréstimo após o casamento com ela? Desisti dos detalhes jurídicos.
Outra questão me deteve. Se ela me propôs o casamento, não éramos noivos? Não era eu o noivo dela?
Angustiado, procurei o Nelson no seu escritório e fechei a porta.
«Cara, me desculpe perguntar isso agora, bem, é que estou encafifado».
Encafifado?
«Ora, pergunte, meu».
«É sobre o noivo da Jane. Só por curiosidade...».
«Ué, mas que que você tem a ver com isso?»
Pensei nas pequenas conspirações de brincadeira que andavam fazendo. Estaria eu enredado no meio de uma?
«Bem, são motivos pessoais. Você sabe quem é o noivo dela?»
«Quem é?»
«Poxa, eu vim perguntar isso a você».
«Não sei cara, sei que é um corretor. Acho que é alguém aqui da Ícaro, talvez de outro escritório».
«Caramba...».
Nelson ameaçou ser indiscreto, mas se conteve.
«Bem, deixa pra lá. Valeu, Nelson».
«Cara, está tudo bem com você?»
«Não, está tudo bem. Estou um pouco encafifado, mas deixa pra lá. É uma longa história».
«Ué, por que não pergunta a ela, meu?»
«Valeu, Nelson. Vou pensar nisso», disse, antes de abrir a porta e cair fora.
Tentei trabalhar naquele dia, mas não consegui. Voltei para casa e fui direto aos meus manuais de história da arquitetura maçônica. A resposta devia estar lá. Eu tinha o diploma de Arquitetura & Design para que? Havia alguns livros grudados uns nos outros. Um deles, «Geschichte des Masonischen Bauwissenschafts», de H. Prümer-Schlüssel, me disse que um dos cinco princípios da arquitetura maçônica, intacto durante todo o seu desenvolvimento histórico, era uma espécie de simbolismo anfibológico: as coisas tinham de dizer algo para as pessoas de dentro e algo para as de fora. Os iniciados não sabem mais sobre a maçonaria: eles sabem outra coisa sobre ela. O conhecimento dos leigos não é imperfeito, mas errado. Para um maçom, uma águia é algo completamente diferente do que é para um leigo.
Abandonei o livro, que me deixou ainda mais confuso. Pesquisei algo na Internet; os resultados foram ainda mais confusos.
No dia seguinte, cheguei mais cedo para o trabalho. Jane ainda não estava lá. Deixei um recado em sua mesa: não posso mais agüentar. desculpe-me, e assinei meu nome.
Não vi Jane durante o expediente, mas antes de sair notei um bilhete na minha mesa: não me procure. eu também não posso agüentar. Aquilo era um enigma. Nunca passei tão mal; nunca, desde que minha banda foi enganada há uns dez anos por uma VJ da MTV. Marimoon – era esse o nome – nos convidou para tocar nos estúdios da MTV, sem explicar o motivo, e ao chegar lá os seguranças não nos deixaram entrar.
No dia seguinte, encontrei Jane nos corredores. Ela parou, como que assustada. Seus olhos estavam vermelhos. Então ela os baixou.
«O que está acontecendo, Jane? Não estou entendendo nada do que se passa».
«Como não entende?»
A incomunicabilidade.
«Você me... você sabe, e depois me vem a notícia de que você está noiva».
«Vou te fazer uma pergunta. Você levou aquele pedido a sério?»
Eu não sabia interpretar. Era uma pergunta objetiva, de sim ou não, ou uma brincadeira, do tipo «então você caiu nessa?».
«Não sei te responder, poxa. Lógico que eu levei a sério».
«E por que agiu como se fosse uma brincadeira?», disse ela, magoada.
Eu não tinha resposta. Era tudo tão confuso: a saída repentina, a espera de 20 minutos, os olhos vermelhos, a ligação, a notícia do noivado...
Ficamos em silêncio.Nos dias seguintes, encontrei um novo bilhete dela em minha mesa: SEREMOS VENCIDOS PELO SILÊNCIO.
Terça-feira, Novembro 25, 2008
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4 comentários:
por onde eu começo?
ah... deixa pra lá.
?
peraí, peraí. tô entendendo, tô entendendo. não tô entendo mais...
julio, seu grande - filho da mãe!
Fôssemos mais simples haveria uma firma (um anelo, hm) chamada J. & J.L. hoje.
Mas é claro que eu sempre levo essas ficções a sério.
Talvez se eu tivesse sentado à mesa diria: sim, para já. (para contrariar a fama de fujão.)
Diria por fim que o universo mental e emocional feminino é uma espécie de Big Ban (pelo menos em casos especiais, como a de sua personagem J.).
A dor impinge uma segunda vida, um segundo sentido da vida às escondidas de nós mesmos.
Excelente, Julio.
Aguardo os proximos que sei que estao guardados por ai. :)
Um abraco,
Lucas
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