Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Tombé en enfance

Ficariam escandalizados se eu dissesse que sou «contra» a culpa, o remorso e a «humildade»?

O estilo que uso aqui é um tanto perturbador, pelo seguinte motivo: eu sempre tenho em conta que o leitor sabe lidar com a ironia e caminhar por múltiplas camadas de sentido (esse podia ser o título de uma tese de doutorado sobre «A farmácia de Platão», de Jacques Derrida). Escandalizar é uma mania meio aristocrática. Nem todos pegam a coisa no ar, e muitas vezes nem deveriam; é que os ingênuos existem, e são necessários.

A culpa e o remorso, tal como os entendemos, são ficções dos dois últimos séculos. Os teóricos de esquerda e demais pessoas comprometidas com um mundo melhor têm em mente conceitos desse tipo quando atacam os «conservadores». Tudo isso estava já em voga na época de Freud; por incrível que pareça, eu tenho em princípio a mesma opinião que o velho de Viena – que já foi um meninote alemão chamando pela mãe aos berros, ao que ela respondia algo como «don’t you cry tonight» – tinha da culpa e do remorso.

Quando alguém mata um semelhante com uma bigorna, sente-se naturalmente culpado por isso – se não for um personagem de um filme de Vincent Gallo. Até aí tudo bem: nossa estrutura interna foi feita para desaprovar essas coisas. O problema está na atitude a tomar diante desse sentimento. O homicida pode esconder-se de si mesmo e alimentar a culpa, ou então pode procurar a polícia, o advogado, o confessor. A primeira atitude, pérfida e egoísta, não é atitude de homem; a segunda, perfeitamente. O «sentimento de culpa» não diz nada: é uma reacção natural; mas se ele não é «encaixado», dá pau. Nisso o freudiano e o cristão bem formado estão de acordo. Mas Freud pisou na bola: para ele, ou ao menos para os seus divulgadores, não só o sentimento, mas a própria resposta desmedida a ele dão no mesmo: devemos ignorar a culpa ou colocá-la em algum defeito ou em outra pessoa.

Um cara com um mínimo de noção sabe que não pode se desvencilhar do sentimento de culpa, mas que pode dirigi-lo de modo adequado: para o arrependimento sincero, sem firulas, sem escrúpulos indevidos, sem atribuir a responsabilidade a outras pessoas. É muito simples: «eu errei e vou lutar da próxima vez», um propósito firme e acabou. Se o sujeito começa a cultivar um remorso injustificado, comporta-se como um Lutero, e terá problemas sérios.Victor Frankl, numa das suas sugestões mais populares, recomendava aos pacientes que desabafassem com uma pessoa de confiança: um rabino, um sacerdote, um pai (acrescento eu), um amigo ou mesmo um psicanalista. Se o cara diz as coisas claramente, o problema está em parte resolvido. O efeito é imediato. Sei que não é possível livrar-se da responsabilidade do ponto de vista metafísico, a não ser recorrendo a uma autoridade transcendente. Mas ao menos do ponto de vista psicológico as coisas começam a se resolver.

O problema é a auto-suficiência, que paradoxalmente exige muletas – e quem exige muletas acaba achando que os cristãos também precisam delas, e isso é mentira de torcida organizada. Para começar, ser auto-suficiente é pouco inteligente. Nós somos animais dependentes: «dependent rational animals», na tese inovadora de McIntyre. O que temos de fazer é aceitar as limitações. Em geral, parece-me que o sentimento prolongado de culpa é uma manifestação de orgulho das piores, e não de humildade. Sempre que imagino um cara humilde, imagino um cara «orgulhoso», sem medo à vida ou à morte. Não são paradoxos em sentido estrito: são problemas semânticos. Assim como não quero que você seja morto por um cara com uma bigorna, não quero que você seja «humilde».

* * *

Fui a Aparecida no sábado passado, não para ver «testemunhos» ou bandas de rock católicas – embrulham-me o estômago, e os punhos também, se me permitem o afetado enfezamento –, mas para ver o que o bom velhinho* tinha a dizer aos universitários de Nápoles, Avignon, Bielorrússia e, por tabela, aos do novo continente.

O que reparei é que o brasileiro – peço desculpas por mais uma crítica ranzinza – orgulha-se de ser mais animado, festivo e cordial, mas está cego para os seus defeitos, que afloram abundantemente em eventos desse tipo: não ouve o que os outros têm a dizer (oh sim, caipiras), não tem senso estético e confunde piedade com sentimentalismo. Os europeus têm problemas igualmente sérios: são fechados, acham que tudo é invasão de privacidade e... e o que mais? Ah, peço desculpas: sou meio cego para os defeitos europeus. O leitor saberá sorrir.

Mas como os italianos se vestem bem, por Júpiter!

No mais, fico feliz com a devoção popular. Até os comunistas ficam felizes com essas coisas.

* * *

Eu sei que há uma tendência contrária aos gênios e ao conceito de genialidade, muito saudável por sinal (de onde vem esse «por sinal»? Alguém? Alguém? Lembram-se do professor de matemática em «Férias muito loucas», 1985, 1986?). Mas mesmo assim sinto a sua falta. Purificado da aura de excêntrico, de sujeito que pode fazer o que quiser e nunca é censurado, o gênio pode ser necessário.

Concordo que haja apenas dois ou três por século – eis outra idéia salutar –, mas podemos ampliar a coisa para agasalhar os excessivamente inteligentes, que fazem a alegria das pessoas. – Há dias em que acordo odiando-os, mas hoje estou do lado deles. Partiria o Nietzsche de porrada, mas não hoje. Nietzsche é um poeta, não um gênio; mas tem uma aura atraente, de bom-moço arredio.

Ah, os epiléticos! Dostoievski daria uma boa tertúlia às 19:30.

O que faz bem a eles é manter um convívio regular com pessoas de inteligência mediana. Em pouco tempo, adquirem o grato hábito de esperar a vez de falar, e de falar com modéstia e parcimônia. Ainda não é excessivamente inteligente o nerd que não saiu do seu quarto ou iglu; e se usa Internet o tempo todo, isso já é um indício de burrice, com o perdão da palavra.

Não é necessário que use óculos. Mais c'est si nécessaire que no dia-a-dia não use chinelos, camisetas sem manga ou bermudas. Bermudas! Por Zeus, há indicativo mais seguro de que o cara perdeu a cabeça?

«O exagero é uma verdade apressada», como disse o Schirmschnurrbart** ali em cima.

______________
* O Papa, seu paspalho, não o Papai Noel.
** «Bigode de guarda-chuva».

11 comentários:

Anônimo disse...

"O que temos de fazer é aceitar as limitações. Em geral, parece-me que o sentimento prolongado de culpa é uma manifestação de orgulho das piores, e não de humildade."

Longe de mim querer usar esse espaço como confessionário (embora eu esteja anônimo), mas três eventos nos últimos 10 dias me levaram a chegar à mesma constatação ontem, antes de ler seu blog.
Mais ainda: esse post é o segundo evento que me confirma tal constatação.

Bizarro, não?

(hmmmm... onde escrevi "Bizarro", leia-se "Providencial")

lpereira disse...

Subscrevo inteiramente sua análise do "Sábado em Aparecida". Pena não nos encontrarmos por lá.

Jorge disse...

cara, eu entrei na faculdade e, estando meio frustrado, gostaria de trocar uns e-mails contigo. Tudo bem (interrogação)

Pedro Sette Câmara disse...

Oh, come on. More no Rio e verás essa opinião sobre bermudas mudar rapidamente. :-)

Julio disse...

Jorge, então mande o e-mail (old.mores@gmail.com) e conversamos.

Louis Wilhelm, eu só encontrei o Leonardo por lá, fora uma pá de desocupados :) Ele me disse que não sabia onde vc estava.

Peter, certamente eu ficaria habituado. É que eu adoro dizer essas coisas; e odeio bermudas do fundo do coração. Tudo bem contigo aí? Mande um e-mail contando as novidades.

Carlos Kramer disse...

"não tem senso estético e confunde piedade com sentimentalismo".

Eu bem sei que esse é o maior dos nossos problemas. E realmente gostaria de saber como se comportam universitários católicos europeus. Os brasileiros eu conheço:
http://www.youtube.com/watch?v=aAzPlQwuzfQ

Concordo com o Pedro. No Rio é dicícil rejeitar bermudas. Acho que fiquei um ano sem usar calças depois que me mudei para cá no início da faculdade. Digo, sem calças, mas de bermuda. Mas não me orgulho disso.

Aliás, acho que é da sensata rejeição às bermudas que alguns homens mais ou menos sensatos criaram a expressão: "te peguei de calça curta".

Lucas disse...

Já ia dizer que não concordava com a parte das bermudas, mas o Pedro se adiantou.

O pior é que ainda uso camisa sem mangas e chinelo diariamente.

Mas com esse calor... isso não é lugar para uma civilização.

Anônimo disse...

ao que se pergunta: "vai à praia?"

Vinícius de Oliveira disse...

Olá Júlio, tenho acompanhado constantemente as postagens de seu blog e devo dizer que para mim foi o maior achado da blogsfera nos últimos meses. Não queria comentar este post, mas dirigir-lhe uma pergunta que talvez você possa responder aqui mesmo. Aliás acharia ótimo se os blogs tivessem uma seção de perguntas e respostas. Acho excelente o que você escreve sobre os religious freak e sobre a importância que devemos dar - e que eles não dão - às coisas cotidianas. Você diz que se tivesse uma visão mística ou algo parecido continuaria a fazer as mesmíssimas coisas do dia-a-dia e ainda com mais afinco. Isso me levou a pensar no seguinte: é uma tendência minha e de muitos que observo pensar que não devemos fazer as coisas senão com objetivos elevados, às vezes abstratos, do contrário o faríamos apenas por vaidade, egoísmo, o que seria condenável. Se não me engano, acho que Pascal pensava assim. Pois bem, um advogado, por exemplo. Ele deveria realizar com esmero e seriedade seu trabalho movido apenas por objetivos elevados, abstratos, por exemplo, pensando em agradar a Deus, salvar sua alma, ou trabalhar pela Justiça? Ou não seria errado que ele tivesse como móvel principal de seu labor objetivos mais rasteiros, mundanos, como simplesmente ficar rico, conquistar o status social ou arranjar namoradas bonitas? Afinal de contas, embora não fosse seu principal objetivo, indiretamente ele estaria satisfazendo os ideais elevados e abstratos: agradar a Deus, ajudar a salvar sua alma, trabalhar pela Justiça. É claro que faço esta pergunta já imaginando qual seria a sua resposta, que, é claro, é a que eu espero. Um abraço e continue com este seu ótimo trabalho blogueiro.

Roger Rodrigues disse...

Concordo com o Julio sobre bermudas!
Semana passada, lá estava eu de calça jeans e tênis no calçadão (ou calçadinha?)
da Praia Brava em Angra. Qualquer dia desses estarei passeando assim no calçadão de Copacabana... outra vez.
Além do mais, eu só ando de meias em casa e nunca uso camiseta.
Sempre há a possibilidade de isso ser um caso patológico sério para a Psicologia, mas insanidade é e sempre foi uma qualidade artística. O que dizer de dormir de calça no verão?!
:)

P.S.: deu erro aqui algumas vezes, espero que isso não apareça duas vezes.

ernesto disse...

Julio,
Não é "epiléticos", mas "epilépticos". Eu sei o que você vai me dizer: "Preste atenção ao conteúdo, e não à forma!", mas pode deixar, prestei atenção ao conteúdo também...
Ernesto