Há uma passagem de J. Crisóstomo que, poupo-vos o grego, diz algo como “as feridas produzidas pelos amigos conduzem à saúde, e à doença os afagos espontâneos dos lisonjeadores”.
A experiência de dizer com clareza as coisas aos amigos, levando a sério as coisas sérias, e tirando sarro das coisas acidentais, pode nos dar a impressão de que se lhes causamos feridas. “Ih, traumatizei o cara”. Isso afastado o erro comum – que encontramos freqüentemente nos conversos – de dizer toda a verdade, do alto de um púlpito, na hora errada e para a pessoa errada.
Ajudar alguém muitas vezes supõe cautério: colocá-lo diante do seu erro, chamar à responsabilidade, etc. Isso dói p’ra cacete, saber que não se está agindo bem. E muitas vezes, se foge dos amigos e se procura os lisonjeadores. O ambiente das universidades e das baladas (e dos blogs, why not?) está composto quase exclusivamente de bonachões que afagam os amigos e lhes dizem que está tudo beleza.
Pode-se criar um blog só para se lisonjear a si próprio e os caras que estão na mesma situação lamentável. Seria melhor “não ter nascido”, nas palavras do velho Ari(stótles).
E muitas vezes dói o cautério porque nós mesmos temos as mesmas dificuldades. Quando corrigimos alguém, isso não supõe que não tenhamos – e às vezes até em maior grau – o mesmo defeito.
Puta merda, então é hora de se examinar – digo isto como quem acende um cigarro.
Com filhos é a mesma coisa. Dizer “não” é sempre mais difícil; e mais difícil ainda dizer “não” com delicadeza, sem partir para a ignorância. Os pais muitas vezes só conseguem dizer “sim” (e daí que o MSN está cheio de pedófilos? ele gosta tanto de conversar, o pobrezinho!), ou então dizer “não” e descer o porrete. Calma lá, bagual. Um castigo só se aplica de cabeça fria. Não estou à favor de palmatórias e essas coisas, mas o sistema operacional dos homens, quando não funciona na base da razão ou quando falham em compreendê-la, requer um castigo aplicado com proporcionalidade (eis aí o nó górdio judaico) e visando o bem do sentenciado (oká, isso é cristão).
Isso soa reacionário? Bem, reacionários são os marxistas de orelha peluda. Isso é só bom senso e bate com a experiência de pelo menos 5.000 anos, polidas as arestas. (Vale lembrar que a educação dos anos 60-90 – de não dizer “não” – já está totalmente ultrapassada).
Quando censuramos alguém por defender o reto castigo quando falha o apelativo racional, talvez seja porque nós mesmos tenhamos sido tratados com lisonjearias – e somos uns mimados, cheios de frustrações e problemas amorosos – e prefiramos que não nos digam a verdade, assim, na cara dura.
(É evidente que o castigo não se aplica aos amigos, seu canastrão! Se falha a razão, o jeito é rezar).
Sempre agradeço a meu pai quando, olhando para um livro que acabava de comprar, me disse que era “puro lixo”. Pois era porcaria mesmo, malgrado porcaria bem escrita. Meu pai também não via com bons olhos Marx e esses ideólogos de esquerda, e sempre lhe vou agradecer por ter deixado isso muito claro, apesar da ausência de proibições e coisas do tipo (minha educação foi, tutto sommato, extremamente liberal, no sentido menos clássico da palavra...).
* * *
(reg’lar people should skip this section)
Conta-se que um dia, à mesa, perguntaram ao velho Moreira Alves, ministro aposentado do STF, se ele tinha dificuldade com o direito constitucional e o tributário, sendo ele romanista. A sua resposta foi mais ou menos assim (não muito modesta): “Olha, para quem entendeu a distinção entre legado e fideicomisso no direito romano, isso é brincadeira de criança”.
Falo-o tendo em mente a pergunta que sempre me fazem, leigos e “doutores”: “Qual a utilidade do direito romano?” Essa questão muitas vezes vem implícita numa expressão facial ou mesmo no silêncio.
Em primeiro lugar, não se trata de uma matéria histórica (há, sim, a história do direito romano e a história do direito ocidental, que aliás não me interessam muito). Em segundo, a rejeição não só do direito romano, mas da filosofia, da lógica e de ciências ou artes mais nobres (entre as quais não incluo, via de regra, a sociologia) implica uma visão de mundo bastante estreita e que a curto prazo conduz à incompetência profissional.
Já devo ter contado que nos EUA e na Inglaterra entre os melhores diretores de corporações estão homens ou mulheres com degree em clássicos em Oxford ou Harvard. Por que diabos isso acontece? É muito simples. O sujeito que aprende a pensar com rigor e vive de conceitos e princípios organicamente assimilados na cabeça é quase sempre mais competente. Além disso, o esmerado cultivo da inteligência é o único caminho para as posições mais altas; e, ça va sans dire, nem sequer é necessário ter uma forte ambição de galgar postos. A filosofia séria, sempre, e o direito romano, no caso da formação jurídica, dão à pessoa a capacidade de “estar por cima” e encontrar as melhores soluções para os problemas. A sua liderança é também natural; e se a pessoa tem uma mínima formação ética, quererá antes servir os outros do que servir-se deles, rejeitando o mau exemplo da ralé.
Para alguém que tem senso prático, conhece o Organon do velho Ari e lê habitualmente obras de literatura, dirigir uma empresa pode ser uma experiência muito boa. Conhece-se melhor as pessoas, evita-se fofocas, vive-se melhor o desprendimento, vê-se mais longe; os erros comuns dos administradores, suposto o “know-how” técnico, tornam-se coisas ridículas e a sua solução aparece facilmente. (Repare-se que não defendo o "rei-filósofo" no estilo platônico, mas sim uma formação rigorosa, mas basilar, para o caso das profissões técnicas e liberais).
No direito, ter contato muito próximo com as análises geniais dos juristas romanos dá à pessoa o poder de chamar para si com audácia a responsabilidade pela resolução de quaisquer conflitos. Eu não sou um advogado competente, mas nunca tive medo dessas questões difíceis – das quais os ativistas de fórum e técnicos fogem como fogem tímidos de mulheres bonitas.
No Brasil, o nível está tão baixo que já desde os anos 50, pelo menos, se questiona o ensino do latim; e há cada vez menos professores – a São Francisco é campeã nesse quesito, só perdendo para a Odontologia no âmbito da USP – em dedicação integral. E deu no que deu: essa arte liberal se transformou numa arte servil, cheio de rábulas e gambiarras. Na Alemanha, em que se estuda latim por muitos anos, conservou-se um certo nível de excelência; tanto que os nossos melhores juristas, a exemplo de Pontes de Miranda (um parecerista milionário), conheciam a fundo o direito alemão, e segue sendo assim.
Da próxima vez que me perguntarem o porquê do direito romano, mandarei o sujeito passear na FUNAI.
Quinta-feira, Agosto 23, 2007
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4 comentários:
"A man for all seasons" ensinou-me a medida polida e delicada do 'dizer a verdade'. Morus me vem sempre à mente quando você fala do tema, Julio.
E que são estes filmes "soco no estômago", "chute no cérebro", "dedo no cu do aristocrata inca" senão filmes verdadeirões? Verdadeirozões?
Mas há coisa pior: Flaubert, por exemplo, teria pensado, ao responder "Madame Bovary c'est moi!...", que é impossível escrever aquele livro SENDO Madame Bovary?
A compulsão de quem se diz "realista" é piorar tudo até a infernalização da realidade. Procuram longe, às vezes, em continentes nos quais nunca pisaram.
(sou de uma cidade pequena do sul do Rio de Janeiro, onde fica a Academia Militar das Agulhas Negras. PRAZER!)
Rapaz, esse blog me inspira! Qual livro você aconselha sobre direito romano?
a coisa de que eu mais gostei do curso de direito romano foram as monitorias. os casinhos eram bem divertidos; caio, tício, semprônia. gostava das trivialidades, hehe
em matéria de romano eu nunca fui além do manualzinho do thomas marky, mesmo. e nem pretendo, acho.
o que acha de ler os gregos em português, júlio? perde-se muito?
o primeiro anonymous não sabe o que "reg'lar" people significa, hã?
He should SKIP that part...
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