Leio “Decline and Fall” do Evelyn Waugh, uma pequena novela escrita e ilustrada por ele, publicada em 1928. As ilustrações não abundam, mas são muito divertidas, como a da página 35 da edição da Chapman & Hall: Captain Grimes, com sua perna falsa estendida, um quadro ridículo de Moisés no fundo, com os dez mandamentos, explicando a Paul Pennyfeather: “You see, I’m a public school man”. Essa novellete não é tão engraçada (gostei mais de “Vile Bodies”), mas mostra um Waugh em boa forma no seu início de carreira. Comparada aos romances posteriores, como a trilogia (especialmente “Men at Arms” e “Officers and Gentlemen”), parece escrita por outra pessoa – e essa afirmação, mesmo trocado o “parece” pelo “é”, continua de certa forma válida. Não vou dizer que o autor não existe (Derridáaa), mas vou dizer que os autores são heterogêneos. E Waugh ainda mantém aquele sarcasmo até o fim da vida, com uma fidelidade a toda prova. Em “Vile Bodies” ele é um jovem frívolo (e inteligente); em “Elena”, ele é um homem de fé (e inteligente); em “Scoop” é todo o seu talento posto em prática para fins estritamente literários. Em “Brideshead Revisited”, homem & escritor maduro. Sempre com ironia na dose certa [...].
* * *
O título de um desses romances do Waugh me lembrou uma coisa. O inglês – vou dizer britânico lato sensu, naquele sentido colonialista, pois ele nasceu em Hong Kong – que legou (legou mesmo, ele não está mais entre nós) à casa onde moro uma coleção de perto de 2.000 volumes de literatura e história inglesa tinha o costume de grifar a lápis, discretamente, passagens dos livros que lhe interessavam como professor de literatura ou historiador. Às vezes é impossível saber por que motivo a passagem está grifada, mas depois de ler muitos dos livros que lhe pertenceram dá para fazer uma avaliação. Pode-se saber muito sobre a sua vida intelectual contemplando esses risquinhos (além das suas preferências gerais, que vão de Dr. Johnson à vida e os tempos de ‘Saint John of the Cross’, passando pela história de Oxford e Cambridge).
Chamou-me a atenção como ele considerava importante a ascensão e queda do gentleman como figura social, símbolo burguês da precisão e do bom gosto como alternativa aos tipos da nobreza (sobre isso, “The Decline and Fall of British Aristocracy” e “Aspects of Aristocracy” de David Canadine). Isso aconteceu no Brasil e foi muito bem notado por aquele reacionariozinho, o Alfredo Lage, que o Bruno Tolentino, depois de se assustar com alguém pronunciando esse nome, contou-me tê-lo conhecido pessoalmente, na época do Gustavo Corção. Não me preocupa o gentleman e em geral a idéia de formas sociais passageiras, fora de moda (os anacronismos me desgostam, com exceção daquele leve toque de nostalgia presente nas casas antigas reformadas); o que me leva a refletir é a ausência de um modelo de comportamento sólido e polido, que facilite o desenvolvimento dos costumes e leve as pessoas a procurar qualquer coisa que cheire a um ideal de excelência. No aspecto exterior, alguém escreveu ultimamente que a meta não é “caprichar” nos modos, aumentando o ornamento, agindo com excesso; a verdadeira elegância consiste na sobriedade, num certo equilíbrio que é resultado do polir as arestas. Na esfera mais interior, falta um mínimo de contato com a Grande Conversação (ok, isso soa ridículo, culpa do Dr. Adler); mas isso é assunto para outro dia.
Terça-feira, Outubro 03, 2006
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5 comentários:
Pode-se saber muito sobre a sua vida intelectual contemplando esses risquinhos (além das suas preferências gerais, que vão de Dr. Johnson à vida e os tempos de ‘Saint John of the Cross’, passando pela história de Oxford e Cambridge).
Esse seria um bom tema para um conto policial de Dom Jorge.
Já leu o "A Handful of Dust" do Waugh? O protagonista sai de uma tradicional mansão inglesa e vem parar...nas florestas brasileiras! Ótima notícia tê-lo de volta à internet, o Ultramontano era dos melhores blogs.
Seria de fato, Roth, uma boa idéia.
Paulo: li sim, e é dos meus favoritos. Na verdade foi o que desencadeou o meu "Ok, go on and read the godamm Waugh's complete works". Ah, e obrigado pelo elogio ao ultramontano.
Enfim, você voltou a escrever. Já não era sem tempo. Eu pretendo recomeçar daqui a uns dez anos. Invejas, invejas mil da sua vida aí em sampa. Espere-me para o ano.
Ei, caraio, o anônimo sou eu, Gustavão. Não sei o que houve com meu nome.
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